sexta-feira, 6 de março de 2009

Pessoinha





Eu criei uma pessoa.
Um ser. Uma pessoinha.
Inventei uma pessoa inexistente para o mundo, mas viva em mim.
Não tem sexo. Não tem idade.
Eu criei uma pessoinha.
Um serzinho com menos de um metro. Bem pequeno. Que se mede com fita métrica.
Uma pessoinha que me acompanha. Mede 60 centímetros e conversa comigo.
pra ser bem sincera, é um ser de muita história e sentimento.
A criaturinha se expressa tão bem e me fala minuciosamente.
O que?
Coisas.
De quem?
Dela.
Da vida e do mundo, às vezes.
Uma invenção que tem uma cabeça, essa que eu criei.
Vamos às apresentações:

Eis a pessoinha.


[ Da vida pensa: " Simples "
( Eu particularmente discordo )


E das pessoas: " Individuais. Cada uma, única. Feita a mão. "
( Taí um ponto comum... Criatura e criador (a) )


Outro conceito- Julgamento: ( Sabe o que esse ser me disse? )

"Eu julgo. Você julga. Errado? Não. Ponto de vista. E daqui de baixo eu vejo. " ]


Lição ganha e aceita.

Uma história que a pessoinha me contou:

[ " Teve uma vez que o céu desceu. Desceu muito.
Mas pequeno (a) que sou, não consegui tocá-lo.
Enquanto outros, um pouco maiores (na altura e não na alma), colhiam as estrelas em cestos largos.
Cestos feitos para caber muitas estrelas. Milhares delas.
E eu, só podia observar.
E foi isso que eu fiz.
Olhei. Contemplei.
Eu não tinha cesto. Eu não tinha tamanho que me permitisse colher.
Mas eu tenho um segredo... Quer saber?
Eu guardei algumas estrelas...
Algumas que caíram no chão. E guardei em um lugar que só eu sei e que nenhuma pessoa, mesmo a mais alta, é capaz de alcançar.
E... sabe onde eu guardei minhas estrelinhas? Quer saber?
NÃO CONTO!
Não conto e sorrio por não contar!
Imagine, se quiser.
Mas eu, pessoinha mínima, inventada, que nem existo pra você...
NÃO CONTO E NÃO REVELO!
Imagine, se quiser.
Mas isso vai ser pra sempre só meu e tão meu!
E sabe... os maiores, os que existem e possuem carne, ossos, órgãos, podem ter dado às suas estrelas algum destino.
Forçado e obrigatório talvez. Ou nada.
Eu? Ah...
Eu as deixei brilhar nesse lugar que só eu sei.
E cada vez mais! E cada vez mais pra sempre!
E isso me fez bem. E ainda me faz.
Foi o que eu fiz." ]


Eita pessoinha boa de prosa, boa de conto!
Eu a amo.
E foi isso que eu inventei.
E é com ela que eu aprendo 60 centímetros de vida a mais.
Aprendo a sonhar mais 5 minutinhos.
Aprendo a viver mais esse instante de lápis, papel e criação.
E principalmente, aprendo a dar a luz a novos seres que me ensinem qualquer coisa.
Com qualquer empolgação e verdade.
Ou com o mesmo despreparo que declaro aqui. Agora.
E é isso. É é essa minha cria e minha criação.



Milla Borges






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Nota da autora:
( Clarice Lispector me desprezaria. Apesar das overdoses que tomo de seus textos. )