sexta-feira, 3 de abril de 2009

Letícia




Rio de Janeiro. Verão. Calor.

Durante o dia, os famosos “40 graus” da Cidade Maravilhosa queimou a pele daqueles que queriam ou precisavam se expor.
Porém, a noite caiu ainda mais quente e abafada no céu daquele Rio de Janeiro.
E da janelinha de seu quarto, Letícia, em pleno adolescer, buscava qualquer vento que não existia para se refrescar.
As cortinas, de cor lilás, não se moviam.
Não havia vento naquele Fevereiro.
E a menina, no seu décimo sexto verão, agoniava-se com tanta quentura, pois assim não conseguia dormir.
Seu colchão “pinicava” o corpo. O colchão dava a menina uma sensação de asco em noites como essa.
Então, Letícia procurava o que fazer enquanto o sono não a derrubava em cansaço.
Enquanto o sono não a obrigava a dormir.
Mas, enquanto isso, procurava se atarefar.

Nesta noite específica, Letícia, que já havia escrito em seu diário, arrumado o armário e feito e desfeito sua cama uma dúzia de vezes, se viu no ócio.

O ócio.

Andando de um lado para o outro, cada vez mais agoniada em seu quartinho lilás, estacou em frente ao espelho.
Parou e olhou.
O ócio deu lugar aos pensamentos, sempre borbulhantes naquela cabecinha adolescente.
A menina se olhou e se reconheceu, essa Letícia.

“ Eu... ”

Analisou o reflexo da sua pele morena e se viu menina, tomando formas de mulher.
Se estranhou, olhou com atenção... E se permitiu ver como mulher.
E assim, pela primeira vez, sentiu-se mulher.

Fixada e apaixonada por sua imagem, bonita, seus cabelos pretos na cintura e sua forma de moça feita. Via uma mulher linda... Mas não queria, não agora, abandonar-se e despedir-se da menina.
Na verdade, talvez quisesse. Era só um apego.
E assim, de olhos rútilos, vivos e acordados, fabricou um pequeno sonho...

“A menina dos meus olhos estão brilhando
E nesse reflexo me vejo lembrando
De tudo que fui e do que agora sou:
Das coisas que passei, sou aquilo que sobrou
Um pedaço de carne e um coração
Recheado de sonhos, dois planos, uma ilusão.
Para os sonhos dedico minha vontade
De num próximo sonho, ser mulher de verdade
O primeiro plano é garantir meu futuro
E sinto-me pronta, isso eu juro!
O segundo plano é só um suporte
Pra que eu me sinta mais segura e forte
A ilusão são esses amores...
Vem e vão, alegrias e dores...
Buscarei a felicidade que eu mereço
Caminhando, cresço, aprendo e apareço!
Vou buscando minha liberdade
Vou sonhando com a maioridade...
Sou a mesma, mas tão diferente ...
Esse impulso que me empurra pra frente
Com letras de forma vai escrevendo
E minha história, amadurecendo.
Eu quero o céu e a plenitude!
Quero paz, paixão e saúde!
Quero soltar um suspiro profundo
Pra conseguir abraçar esse mundo!
E finalmente ser dona do meu nariz
E ser dessa vida, a mulher mais feliz...”

E nesse momento, um ventinho entrou sem permissão pela janela bagunçando os cabelos da Letícia.

Sacudiu a cabeça, saindo do seu transe e bocejou...

O sono já estava visitando aquele quartinho lilás.
A madrugada estava mais fresca agora e a cama, convidativa.
Letícia olhou para a cama e voltou o olhar para o espelho.
Sorriu, menina, e despediu-se com um beijo, tocando os lábios frios da mulher refletida ali.

Um beijo e de novo um sorriso...
Um bocejo.
Jogou-se na cama e adormeceu tão linda...

Da janela dava para ver o mais lindo luar, inteiramente dela, no céu daquele Rio de Janeiro...

Milla Borges