segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Frívola


Sacudi o pó de todas as palavras que estavam guardadas e envelhecidas...
As desembrulhei cuidadosamente, para que elas não se quebrassem, não se partissem...
O trato com as palavras sempre foi um tanto dificultoso para mim. Não sei lidar com a fragilidade alheia. Eu, frívola (De um modo peculiar), -totalmente contraditória, - não sou muito boa com as palavras.
E já faz tanto tempo antigo...
Mas o fato é que mesmo antigas, elas são minhas. Essas palavras são minhas...
Manusear palavras velhas é um trabalho que requer muito cuidado, muito carinho e entendimento e mesmo a minha erudição, não me permite compreender totalmente a vastidão dos significados que essas palavras arrastam na minha face, para que meus olhos as leiam, para que meus lábios as balbuciem.
Entrelaçadas estamos, eu e as letras... A dependência é física. A insuficiência é psicológica.
Há ainda, uma poeira branca e fina sobre cada palavra do passado.
Às vezes, tenho a impressão que sou eu quem pertence a elas e não elas a mim... De certo modo elas me controlam tanto, têm tanta influência sobre minhas decisões, meus caminhos, meus “eus”. Meus dias, meus ontens, meus amanhãs... Todos dominados por palavras vivas, por palavras de um tempo que não havia acentos possíveis, porque tudo era tão linear.
Eram somente palavras... SÓ palavras...
Antigamente eu não tinha consciência de sua importância...
Com o passar do tempo, entre tantos escritos, entre tantos timbres, percebi que havia nelas certo poder. Nas palavras havia um mundo novo e isso era fascinante para minha mente nova. Palavras velhas repletas de força! Um poder. Dor e alegria, o poder vinha de suas entonações.
Em suas sílabas tônicas. Suas verdades átonas... Tudo causava em mim grandes hiatos...
Eu as queria o tempo todo comigo, as palavras.
A verdade então é que fomos sempre muito amigas. Eu dona. Elas propriedades.
Aprendi a colocá-las, a direcioná-las. Aprendi a gostar de todas as palavras... Todas elas: belas, sujas, tristes, sólidas. Eram minhas e eram para mim.
Manipuladas por mim. Usadas por mim. E assim, havia felicidade em minha vida.
Havia sim.
Deu-se em tempos turvos um cansaço. Um desapego momentâneo. Passou...
Na hora do silêncio, sempre houve um respeito profundo. Tanto que as palavras davam logo um jeito de desaparecer, para que então o silencio se instalasse.
Nunca houve rixa entre palavras e silêncios...
Cada um sabia de sua importância para mim.
Cada um deles tinha o seu momento, a sua hora, o seu lugar na minha vida.
Em geral, o silêncio chegava manso e branco. Úmido e salgado. Um silêncio de lágrimas.
Tenho uma relação bonita com o meu silêncio... Por vezes nos estranhamos, mas entre nossas pausas, há um amor doce.
Hoje, resolvi então embrulhar o silêncio e guardá-lo no lugar das palavras...
Hoje eu quero é ficar com minhas palavras velhas, me perder com elas...
Quero tocá-las com a alma. Quero as palavras usadas.
Quero envolvê-las com pensamentos indefiníveis, quero a coerência de suas entrelinhas...
Quero jogá-las para o alto e dar-lhes asas, como sempre fiz...
E por ter asas é que de tempos em tempos novos, elas voam para longe... Fogem de mim...
E quando as recupero, sinto a necessidade de guardá-las, para que nunca mais me abandonem...
Por este motivo é que as páginas de minha história estarão sempre incompletas...
Por este simples motivos, sempre haverá pó em minhas palavras velhas...

Milla Borges

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Princesa Urbana


Logo cedo no meu reino o dia é inventado.
Muito cedo o som do despertador rasga o silêncio da manhã e me chama para a vida.
Eu, obediente, me permito abrir os olhos devagar. Desprendo-me do sonho real.
Faço manha para os meus lençóis... Estico-me e acordo cada parte de mim.
Do alto da minha torre, posso ver o sol e o seu calor passa a ser o meu motivo.
Tomo um banho gostoso... Óleo de amêndoas doces, cheiro de jardim florido.
Jeans, All Star, make up.
Dou uma olhada no espelho.
Não... Hoje não vou usar minha coroa de princesa... Nem grinalda... Nem enfeite.
Hoje, como ontem, como todos aqueles ontens, serei simples.
Na minha simplicidade encontro minha beleza. Minha realeza.
Espelho, espelho meu! Existe alguém mais princesa do que eu? Não.
Não existe. Fato.
A rua me chama. Obedeço. Sou engolida por ela.
Seu cinza me encanta! Como é poético o cinza urbano... É acolhedor! É maravilhoso.
[...]
Carruagem coletiva a caminho do ofício.
Fone nos ouvidos, sons que me tiram da órbita... Eu apenas observo os transeuntes.
Engraçado como todos os rostos nas ruas são tão previsíveis. Cada expressão, cada nariz, cada gesto... Reconheço todos no meu reino, sem conhecer de fato. Invento suas vidas no meu pensamento...
Com a generosidade de alteza que me cabe, distribuo sorrisos por onde passo...
[...]
Chego ao local do ofício e exerço bem a minha função... Passo manhãs e tardes em meio a números mágicos que de certo modo me dignificam...
Olho a plebe pelas calçadas na hora do banquete. Me dói alguns meninos... Pequenos príncipes abandonados virando sapos, virando ratos... Vivendo num sub-reino que a realeza finge não existir. Mas é real... Nem sequer é cenário de algum conto de fadas...
Evito aqueles olhares... Eles me causam remorso, por algum motivo...
[...]
A tarde surge encantada... As horas escorrem pelas paredes, o tempo voa em sua sabedoria infinita...
Há cansaço. Não há suor porque princesas não suam...
Risadas, pausas, café para recobrar as forças!
(Um segredo de princesa: Há uma felicidade escondida no café das cinco)
Pouco a pouco, me dou conta que a minha realidade existe entre os sonhos... Os meus, e os dos meus... Porque acolho aqueles que comigo passam suas horas bem embaixo de minhas asas...
[...]
Num instante a escuridão invade o reino e tudo o que eu quero é estar de volta ao meu palácio...
Mais uma vez, a carruagem coletiva é o meu transporte (embora, neste momento sempre anseio por um tapete mágico... Daqueles que voam... Mas como disse, sou princesa e não fada. Não tenho poderes... Ainda não.)
Mas o barulho dos carros faz meu coração acelerar! Sinto uma ansiedade, uma agitação interna como se o mundo estivesse por um fio! Como se a menina do circo, andasse na corda bamba sem a rede de proteção... Eu gosto um tanto dos sinais de transito e suas luzes...
Ao longe vejo morros e colinas, cobertos por luzinhas... É tão melódico! Tão artístico...
Sinto de perto a essência das coisas... As pessoas por um triz.
A vida, sendo vivida no escuro.
A noite me faz bem... Seus mistérios e seu azul marinho... Tudo muito excitante.
[...]
Chego ao meu palácio e uma saudade louca me invade o peito... Ele queima de amor.
Ligo para o meu príncipe e uma paz verdadeira toma conta de mim... Ele é meu vício bom...
Nossa história tem sido escrita com tanto carinho, com tanto amor, que já posso ouvir os acordes do final feliz!
Após o afago da voz de meu príncipe encantado e imperfeito, tomo um banho gostoso... Óleo de amêndoas doces, cheiro de jardim florido.
Roupas leves e alvas para o corpo se sentir amado...
Não possuo bola de cristal, mas duas telas me divertem um pouco... Fazem as vezes de um bobo da corte! Numa vejo a vida inventada. Noutra vejo a vida do jeito que as pessoas do reino gostariam que ela fosse.
Em ambas as telas, tudo é muito fictício... As pessoas são um tanto plásticas... Pouca gente tem coragem de ser o que é.
Pouca gente tem coragem de ser.
Perco tempo. Ganho rugas. Passo cremes.
Sinto o tempo...
Espelho, espelho meu! Existe alguém mais princesa do que eu? Não.
Não existe. Fato.
[...]
Do alto da minha torre, posso ver a lua e o seu prateado passa a ser a minha inspiração. O meu objetivo.
Eu sinto vontade de celebrar a vida.
[...]
Como uma bela adormecida, o sono lança em mim o seu feitiço e eu busco aconchego em meus lençóis...
Como anjo em nuvem, adormeço.
Há uma entrega verídica ao mundo dos sonhos, onde a magia rege a vida real.
Todo o meu reino dorme comigo. Todo o meu reino sonha comigo...
Todo o meu reino conta minha história...
E por fim, só uma frase ecoa no espaço...

“E viveram felizes para sempre”

Milla Borges

domingo, 26 de setembro de 2010

Ode (silenciosa) à solidão



Pelos laços desfeitos
Por nossos defeitos
Pelo que não dá certo
Por todo desafeto...
- Brindemos à solidão!

Pela causa perdida
Pela paz escondida
Por todo tormento
Por cada lamento...
- Brindemos à solidão!

Pela escolha errada
Pela voz abafada
Pelo caos instalado
Pelo amor alterado...
-Brindemos à solidão!

Pela dor verdadeira
Por toda cegueira
Pelo ato da maldade
Por toda falsidade...
- Brindemos à solidão.

Salve toda hipocrisia, as conversas vazias,
Essa superficialidade, Salve!
Salve o desinteressante, as relações distantes,
O peso da iniqüidade, Salve!
Salve a ilusão do eterno, os romances modernos,
As tentações e deslizes, Salve!
Salve a solidão dos amantes, os amores errantes,
Os finais infelizes, Salve!

Para os becos, saída
Para a morte, a vida
Para o frio, calor.
Para o beijo, abraço
Para o tempo, cansaço
Para o mundo, amor.

Para os casais, ofício
Para as brigas, desperdício
Para os perdidos, direção.
Para seguir, caminhos
Para os outros, carinho
Para mim, solidão.

...
(Porque às vezes me é preciso.)



Milla Borges


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sui Generis


Rosto angular
Sorriso largo, eu e meus olhos.

Rateio de almas, metade/metade

Estou cheia de fatos. Estou farta.
Procuro uma ação que me falta...
Um entendimento que me preencha.
Qualquer coisa que faça sentido...
O não sentido me desnorteia... Não tem limitações.
Tudo o que vivo é algo solto no mundo...
E o que se solta, se perde...
Eu presa me perco, livre me acho.
Num lugar que nunca estive.

Quantas de mim há no mundo?
A pausa.

Há a pausa.

Não sou o que segue. Sou o que fica.
Imersa em alienações da mente.
Sugando o gás carbônico.
Fazendo fotossíntese de mim mesma.
E eu que me alimento de mim...
Me invento?
A cada instante, almas em um só corpo.
Pensamentos em uma só cabeça.
Um ponto, uma vírgula.
Eu: Ponto e vírgula.
Pausas para respirar. Inspirar para dividir o tempo.
Divisão de opostos. Metade/Metade.


Tenho os dois pólos.
Positivo e negativo.

Uma carga magnética. Poder gravitacional.

Atraio. Energia vital. Elétrica.
Na calma estranho o tempo e mostro os dentes.
Nem para sorrir, nem para rosnar.
Embora meus instintos sejam primitivos e animais...
Tem a arte correndo em minhas veias.
Sou a inspiração da Monalisa.
Da Vincci já me conhecia muito bem...
Rateio de almas.
Metade era eu, a outra era ele.
Não sou um rascunho e nem obra prima.
Sou apenas a pulsão artística em sua essência.
Que fique claro: Sem nenhuma técnica.

In vino veritas
Uma grande mentira

Um gole de sinceridade, sim?
(A arte que é cópia e ilusão)
(A arte é a minha verdade)
(Minha vida, uma mentira)

Arrasto-me da realidade para fora da vida.
A velocidade do vento é o meu transporte.
Para que o real, se nada é, de fato?
A verdade se encontra na desordem das coisas...
O que se desmonta traz consigo a verdade dos pedaços...
Cada pedaço das coisas é uma coisa em si...
Cada coisa em si, quando se junta, forma a ilusão.
Eu sou parte da ilusão. Metade/Metade.
Formando um todo verdadeiro.

Nas letras, me encontro.
Palavras e fragmentos

O pingo do “I” me agrada.
- Nas letras a origem.
Sons, rabiscos, gestos
Tudo é intuitivo. O Intuito é a comunicação.

Eu nasci de um alfabeto.
Nomeio coisas sem nomes, por divertimento.
Não há o que exista sem palavras.
Cada nome é um conceito. Uma identidade.
Meus conceitos me refletem... E eu sou um nome.
Nome não tem documentos. Alguém me identifica?
Nada me conceitua...
Cada letra é uma arma mortífera.
Cada som de cada letra... Um código.
E qual o sinônimo da vida? (sentiu a pressão das palavras?)
Dangerous!!!!
Eu sou o antônimo de.
Eu sou a sílaba tônica do mundo.
(Ando nas extremidades, sempre na ponta dos pés)
Rateio de almas, metades e partes.
Silaba a silaba eu conto a minha história.

Não há igual a mim.
Nem igual a você.
Mas esse mundo de meu Deus é tão grande...

Unicamente.
Única mente. A minha.

Rateio de almas/ Metades dos corpos
Cabeças inteiras se partem...

Somos feitos a mão.
Cada um é um só.
E afinal? Quem sou eu?
Sou uma digital.
Mas sou uma digital única.
Pessoal e intransferível.
O meu jeito, o meu sorriso, as minhas palavras...
Podem até imitar... Porém nunca vão se igualar.
Uns dizem: É diferente!
Outros bradam: É louca!
Sou tudo isso, de maneira peculiar.
Sou nada disso, de maneira previsível.
A surpresa da unidade e da não apreensão do futuro.
É o que me constitui em cabeça, tronco e membros.
Membros fortes, cabeça muitas vezes fraca, fraca...
A força é toda do pensamento.
(Se for pra gritar, eu grito.)
(Se for pra chorar, eu choro.)
(Na hora de silenciar, me calo.)
Única pessoa de muitas personalidades.
Um monte de mim em apenas um eu.
Rateio de almas.
Um pouco pra mim. Outro tanto de mim pra você.
(Ou a quem interessar possa...)

Um tanto de médico. Boa parte de mostro.
Cheia de imperfeições que fazem de mim, única.
Carrego nas costas erros eternos.
Eu sou um erro da natureza. Uma falha pura.
Uma anedota divina.
Afinal, meus acertos não falam de mim.
O que eu erro, diz muito mais a meu respeito.


E nesta empreitada de descoberta...
Para tentar saber um pouco quem (ou o que) sou:
Escrevo.

Defino assim: Sui generis
Rosto angular
Sorriso largo, eu e meus olhos.

Rateio de almas, metade/metade.

Milla Borges

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Coisas da Milla



Leve como uma pena estava eu a flutuar no meio de um sonho.
Eu tinha ciência de que sonhava, mas não podia nem queria me despertar...
No sonho tudo é tão lúdico quanto encantado! As dimensões pregam peças aos nossos olhos, e o tempo, tem um tempo diferente...
Meus pensamentos são empíricos, portanto, me sinto em casa e de pernas pro ar...
Tenho apenas uma pequena noção dos espaços... Meu subconsciente se encarrega dos detalhes.
Dou cambalhotas ao vento e saltito de nuvem em nuvem, porque aqui, a gravidade obedece a minha lei. E a minha lei é a liberdade!
Neste sonho, leve eu estava e leve eu voava para dentro de mim mesma... Mergulhava em sangue vermelho vívido, escorregava feito como se escorrega em tobogã por artérias e veias... Glóbulos brancos bailavam, pulsavam, brincavam de fazer o corpo funcionar!
Meu corpo todo era energia e emanava uma luz azul brilhante, como água do mar que brilha ao ser tocado pelo sol!
Era eu, inteirinha pulsando em sonho! Viva para aquela doce realidade ilusória...
Joguei-me então no mar dos meus desejos, onde cores, sabores e aromas explodiam em mim, como fogos de artifício.
Tudo brilhava em águas brandas e mornas. Era uma acolhida!
Peixinhos fluorescentes nadavam comigo e rodeavam meu corpo, cantando cirandas e rodando, rodando, como o mundo que gira, e gira e a gente não sai do lugar! Em coro, nós cantávamos e sorríamos em reverência ao lindo sol que despontava no Céu, um Céu cada vez mais azul anil!
Ondas me levavam para lá e para cá e num repente estava eu imersa em fantasias e flores, todas as flores, de todas as cores, como num sólido jardim gigante! Estava eu tão miúda, sendo pólen de flor, eu estava germinando! Era eu donzela rosa, a procura de um cravo bem amarelo! Eu tocava com meus olhos o horizonte, mas não via o cravo. Todas as cores e onde está o amarelo? Eu não via!
Era eu rosa cor de rosa a procura de um amarelo... Distraí-me com o colorido da borboleta!
E que linda borboleta! Fui com ela plainando sobre os girassóis! Borboletando, borboletando!
E nos girassóis, meu amarelo apareceu para me abraçar tão docemente... Que sensação agradável!
Quanta alegria resumida nas cores das flores! No bater das asas da borboleta bonita!
Como num passe de mágica, surgiu ao longe, para acariciar meus olhos, um encantador arco íris! Feito de tinta guache e purpurina!
Era a confirmação de que as cores me sorriam! Parte de um sonho embrulhado para presente!
Aceitei de muito bom grado!
Corri para verificar se acharia nas extremidades do arco íris um pote de ouro e mel!
Uma chuva bem fininha começou a cair, mas não era água o que as nuvens derramavam. As nuvens se desfaziam em jujubas coloridas! Cores! Mais cores! E mais!
Doces!
Que doce sonhar!
E o que achei na extremidade do arco íris foi algo ainda maior e mais bonito que ouro! De um esplendor fantástico! Era um universo azul royal, com estrelas prateadas piscando, faiscando fagulhas de paz para alegrar a lua! Havia uma festa naquela noite! Pois é, anoiteceu e tudo se iluminou.
Era um prateado tão intenso e belo que meus olhos lacrimejavam de emoção...
Na festa noturna e prateada, teve valsa e teve samba... Os astros se reuniram para sonharem junto comigo...
Cometas, luas, estrelas, sóis... Eu, estrelando um sonho meu!
Eis que um relógio feito de ouro badalou as horas do fim...
Mas já?
Ahhhh não! Só mais um pouquinho...
Porém o despertar estava quase, quase...
Agarrei-me a uma estrela cadente e desci com ela para o solo macio e fofo, feito de lençóis e colchões e almofadas e...
Abri os olhos...
Era dia!
Foi um sonho tão bom e tão lindo...
Fiquei um tantinho ainda deitada, olhando para o teto do meu quarto relembrando cada momentinho do que naquela noite, vivi sonhando...
Levantei-me.
Quando de repente pus a mão nos bolsos do pijama e...
Oh! Que surpresa...
Em um bolso havia jujubas coloridas...
No outro, um lindo girassol amarelo!

Milla Borges


domingo, 1 de agosto de 2010

A falta


Meus dias nunca mais foram os mesmos...
Tornaram-se frios à medida que a saudade foi vagarosamente, dolorosamente, se instalando em cada um de meus espaços.
Em todas as palavras, há essa falta.
Em cada canto da casa, há essa falta.
A falta mora em minhas lembranças, no meu passado.
Faz parte do meu presente, e certamente, me acompanhará nos passos futuros...
É algo assim, como uma ferida que nunca cicatriza, sabe?
Um universo de solidão instalado no peito e ativado a cada data especial, a cada cheiro familiar, a cada música de Chico Buarque...
Quando tudo o que preenche a alma se esvazia, o coração chora.
Hoje, meu coração é uma poça salgada de lágrimas...
Um dia, o que foi tirado de mim, causou uma dor eterna.
Não sou inteira.
Como ser, sem o meu melhor e mais precisos pedaço?

Eu sinto falta...


Dos cafés da manhã na cama...
Das bolinhas de sabão na janela do 4º andar...
De dar milho aos pombos na praça XV...
Das filosofias acerca das canções de Secos e Molhados...
Das sextas feiras de pizza e vinho no Baixo...
Dos papos... Risadas... Da amizade. Do amor...
Daquele abraço.
O abraço...

Eu lembro tanto...


De quando me deu o livro Água Viva da Clarice...
(E Assim, despertou uma paixão que ainda hoje, vive)
Dos Natais em que se vestia de Papai Noel...
(O meu Papai. O bom velhinho)
Dos sonetos de Vinícius de Morais que recitávamos...
(Nosso favorito, Soneto da Fidelidade, que hoje, tanto me serve)
Do Jardim Zoológico e do parque de diversões...
(As brincadeiras do Macaco Tião / Nós dois na montanha russa)
Do meu quarto que um dia foi pintado de lilás...
(E nele, tudo se acabou...)

Levo de você a mania de ler, o prazer de escrever, a habilidade para os vícios, o coração bom...
Guardo comigo, seu cheiro, sua lembrança, suas fotos, seu jogo de xadrez, seus livros, seus poemas...

Sempre terei tuas marcas em mim...
É com a tua imagem que eu quero sonhar...

Sempre haverá um bom momento nosso para ser lembrado...
É o seu sorriso o que eu quero imaginar...

Sempre guardarei todas as tuas palavras de carinho...
É a sua voz que eu insisto em escutar...

Sempre haverá a falta...
Para sempre faltará...

Milla Borges




Aproxima-se o dia dos pais e eu só desejo que receba o meu amor, onde quer que esteja.

Que Papai do Céu te guarde...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dama da noite



Olá, sonhadores!

Numa noite dessas, estava eu conversando no terraço com o meu sogro, quando ele me mostrou uma flor... Linda... Um perfume incrível!
Ele me disse que essa flor se chama Dama da noite.
Ela se abre durante a noite, exala seu aroma e enfeita a madrugada... No raiar do dia, ela morre...
Alguns, poderiam ter visto tristeza, ao olhar para esta flor, de vida limitada...
Eu vi poesia...

"Cada vez mais, a noite cresce em mim.
A cada estrela que nasce ao brilho do olhar.
Recolho da noite a serenidade enfim.
Para tanto, me dou, sem de fato me doar
À escuridão que eu tento pertencer
Dama da noite, o seu estonteante aroma...
Torno-me a flor do seu anoitecer
Por sua beleza, o luar me toma.
Plantada no ar, minha pétala alva
Uma flor ao vento, sem raízes...
Pela manhã, a morte que salva
Da eterna noite, das horas felizes...
Regada é a flor com a água da vida
Fonte de amor por natureza
Lágrimas derramam-se agradecidas
Pela contemplação da singela beleza
(Há um tom de alegria, outro de tristeza)
-Eu respiro poesia!
Gotas de orvalho, às folhas enfeitam
Nuvens noturnas bailam ao vento
Poesia do céu, seus versos espreitam
A suavidade e pureza de cada momento
Sinto a inebriante sensação de unidade
Tudo aquilo me possui e me fascina
Para Lua, reverência à majestade
Para mim, a lembrança de menina.
À dama, meu mais profundo respeito,
Que o sonho seja o solo e a base
Pingos das horas escorrem sem jeito
Para que o amanhecer se atrase..."

Milla Borges


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Boas novas!
O Alienatio Mentis está cheio de novidades!
Anuncio minha nova postagem no Alienatio Mentis!
Uma filosofia de quem observa as pessoas e o seu tempo...
Basta clicar aqui:

http://millaborges.com/blog/

Há também, no quadro Mentes Convidadas, textos de duas blogueiras, que conheci aqui, na Fábrica de Sonhos!

Mary Jane, do blog: Psicografias de uma mente confusa
http://psicografiasda.blogspot.com/

Mikaele Tavares, do blog: Pensamentos de uma garota
http://mikaelepensamentos.blogspot.com/

Aguardo vocês para o chá!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ser confiante


Sinta essa luz que vem de cima... É clarão.
Feito de branco reluzente e lilás aromático, e brilha no céu porque o vento espelha...
Feche os olhos e apenas sinta essa luz.
O ar tem perfume de rosas...
Cheiro bom.
Tente perceber o que se passa comigo agora... É algo novo...
É algo bom. É prazer de vida...
É felicidade brotando dos poros, passeando pelo sangue.
Sentimento vivo, intenso. Da cor da paz...
Alto, porque não alcanço suas causas...
É a própria causa, porque hoje, vivo suas conseqüências...
Faz bem, porque é Ele quem está no comando...
Um algo que cria ordem a partir do caos.
Um algo que leva às lágrimas, que seca as lágrimas.
Instala-se no corpo. Onde?
Dentro.
No coração faz a morada, e por isso tudo é tão leve agora... Quero que sinta isso...
Quero que sinta a vida leve. Suave e forte, no alto, bem branco e bem lilás...
É o que quero transmitir também.
Não desejo esse bem só pra mim. Não sou digna de tanta felicidade, mas é mais forte que eu...
As coisas acontecem e o porvir é mais segurança que mistérios... Não há mistérios.
Há a fé de que está tudo bem...
E está.
Tudo novo.
Renascido.
O que se enrola, desenrola, por ser tão natural...
É tão simples e ao mesmo tempo incompreensível.
Desafia a razão, mas a emoção nunca esteve tão certamente inclinada.
Ah! Feche seus olhos e se permita sentir... É amor.
Inspire esse amor...
Você também merece! Eu que me julgo tanto, julgo sempre...
Tão errada e imperfeita...
Eis que o Criador tocou com sua luz a criatura perdida.
Enfim me encontrei.
Ah! É amor. Amor maior. Não tem como não ser amor.
Amor real.
É isso...
Amor.
Recebido e doado.
Ele é por mim.
E eu por Ele.
Sinto...
Sinta...

"Nesta noite sopra o vento
Eu só penso em Teu abraço
Perco-me para achar o Teu alento
Vestígios de qualquer movimento
Que me guie até Teus braços
Para que eu repouse o meu cansaço
E me renove em Tua presença
Para que eu renasça em Teu amor
Faça Tua morada em mim, sem pedir licença
Pois sei que queres que eu vença
Toda tristeza, toda angústia, toda dor
Para que eu viva plenamente com você, Senhor.

Eu que antes vivia em um escuro beco
Não suportava o peso da minha cruz
Eu que era, sim, um galho seco
Hoje sigo no caminho da Luz.
Sinto-me envolvida por Teu amor infinito
Não há sentimento maior ou mais bonito

No céu, estrelas brilham por mim
Do céu, se inclinas para me ouvir
Hoje sei que estás sempre comigo
Só você é meu refúgio, meu abrigo
A melhor razão para sorrir."


Milla Borges


segunda-feira, 21 de junho de 2010


Nunca houve então o perfume que o revelasse a paixão.
Nunca houve crise de ciúme ou arrebatamento que pudesse acelerar o coração.
Faltava-lhe na vida, um toque feminino, suavidade de mulher, ou justificativa para todo o vazio que pudesse ser preenchido de alegria.
Ao corpo, faltava o calor, ou momentos de desatino, irresponsabilidade qualquer...
Mais instinto animal, mais cio...
O que pudesse lhe dar um sentido ou presença que lhe fizesse companhia.
Nada disso havia.
Tudo assim se resolvia.
O fato é que não tinha anseios. Não desejava com ardor coisa alguma.
Não cobiçava as vizinhas e seus seios. Amor? Que nada!
Um primitivo insensível em suma.
Será que a ausência afetiva lhe vestiu a capa da agonia?
Ou a paz da solidão lhe cobre o corpo e alivia?
Não sente. Não sente falta de pés roçando os seus no frio da noite, do gozo de anoitecer amando entre carinhos... Carinhos e açoites. (E porque não? A dor acompanha de perto tudo aquilo que se dá intensamente. Há jeito de descobrir o seu desejo. O prazer é inerente ao que a sensação física pede. Tapa pra quem é de tapa. Beijo pra quem é de beijo.)
Mas nem disso havia procura, ou a loucura, quem sabe a cura, para toda noite escura que passava só e consigo.
Tudo que acontecia não tinha razão de acontecer ou não era para ter acontecido.
Nem tapa. Nem beijo.
Sendo fraco era forte. Nem de vida, nem de morte... Sua vida, um recorte. Uma página rasgada de um livro envelhecido.

Milla Borges



Sonhadores,
Mais uma vez agradeço aos comentários e palavras tão lindas que me escrevem.
Fico feliz. Mesmo!

Deixo aqui, mais uma postagem doida do blog Alienatio Mentis:

www.millaborges.com/blog

Um beijo enorme no coração de vocês!
Ótima semana!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sonhos que sonho então...


Olá sonhadores!!!

Sonhos que vem, sonhos que vão...
Sonhos que sonho então...

Antes de mais nada agradeço a todos que visitaram minha "nova casa", onde a fabricação dos mais variados sonhos continua...

O sonho, foi postado lá, e para desfrutá-lo basta clicar no link abaixo:

www.millaborges.com/blog

Ahhh! Mas quem sente saudade das rimas, não ficará sem a sua dose de sonho!
Pode chegar!
É de graça. Faz bem pra alma. E alegra o coração!

A moça

Coloquei nos cabelos laço de fita
Enfeite novo, cor de rosa
Diante do espelho toda prosa
Doce encanto de moça bonita

No olhar, simplicidade
Presenteio-me com sorriso
Roupa clara, tecido liso
Espelhando tranquilidade...

Em homenagem a beleza
Para a alegria do meu batom
Na minha voz, uma leveza
Nos meus lábios um gosto bom...

Intenso brilho pela face
Luz nos olhos, doce encanto
A admirar um tanto (e quanto!)
Essa paz que em mim renasce...

Desabrochei! Abri em flor
Me completei moça feliz
É para mim mesma (que fiz)
Declaração de próprio amor...

Milla Borges

segunda-feira, 22 de março de 2010

Alienatio Mentis - Novo Blog!

Amigos sonhadores!

Como eu havia dito anteriormente, eis que chegou minha nova fase, um novo ciclo...
Algo em mim se inquieta e as perguntas nunca borbulharam tanto em minha cabeça, os sentimentos nunca foram tão arrebatadores, os sentidos tão aguçados e as palavras tão importantes e urgentes como agora...
Quanto às respostas, não me preocupo com elas por hora... Quero apenas as questões.
E para isso, apresento meu novo blog: Alienatio Mentis.

www.millaborges.com/blog

Neste meu novo espaço, me sinto mais a vontade para falar tudo aquilo que na verdade tenho necessidade de expor.
Tenho obrigação para comigo de não sufocar meus pensamentos dentro de mim...
E claro, conto com as mentes de vocês, sendo complemento da minha...

No novo blog, criei um espaço para as mentes convidadas e amigas. Sempre terá um texto de um de vocês. Portanto, quem quiser participar dessa experiência, me avise, sim? Venham tomar do meu chá!

Criei ainda, no blog, uma página para escrever aquilo que ouço por aí...
Eu presto muita atenção no discurso alheio... Tenho essa mania.
Gosto de ouvir as conversas nas ruas, de observar o outro, de perceber as suas idéias...
Então, postarei também as sabedorias populares, os diálogos, coisas engraçadas... Tudo que o cotidiano me fornecer como texto!

É isso pessoal! Estou empolgada e com a minha máquina a todo vapor!
A Fábrica continua por aqui fabricando sonhos... Lá, eu fabricarei dúvidas!

Venham comigo!
Conto com vocês!

Beijos!


Milla Borges


quarta-feira, 17 de março de 2010

Chuva e Ciclo




Está chovendo.
Uma chuva intensa e espessa que pede licença aos céus para se derramar sobre a terra dos homens.
Eu a observo e a sinto tão gelada e forte.
Uma força que me toca e se conecta a mim através dos meus sentidos.
Água que é nuvem. Nuvem que é leve.
Eu sou essa chuva. E cada gota dessa água.
Sendo metamorfose e renovação do estado físico e da essência, num constante desaguar de si mesma.
E depois...
Cansada de escorrer pelas ruas, pelas palavras, pelas paredes e pelos sentimentos, ser capaz de evaporar, subir aos céus e tornar a ser nuvem. Ser leve.
Envolvida e feita de leveza, flutuar livre, até que o peso natural, das coisas naturais dessa vida, me obrigue a desaguar... A desabar novamente.
Ainda está chovendo...
Este é o ciclo da chuva. O que há de mais natural nesse mundo, diante dos meus olhos.
É também o meu ciclo de leveza, densidade, renovação...
E hoje, eu só quero chover...

Milla Borges

sábado, 6 de março de 2010

Provocação



Brincando com as palavras, com os conceitos... Sem misturar a palavra e o sentido.
A verdade é que sempre conto uma história, por trás de uma outra história.

Texto sobre uma experiência...

"No lugar do verbo, eu fiz silêncio.
Não uni as orações com advérbios.
Excluí as vírgulas e fui apenas reticente...
Uma provocação dialética.
Para os olhos distraídos e para as mentes cansadas, eram apenas e tão somente palavras...
E, sim... Usei de ironia...
Descrevi o “nada”, o “sem importância” da maneira mais bonita.
E houve o aplauso.
Mas, que fique claro, eu nada quis dizer.
Eram só palavras...
Organizadas e belas.
E olha só que coisa interessante:
Para quem viu além das letras, a comunicação se estabeleceu.
Há aqueles que leem com os olhos, mas há os que leem com a alma.
Para estes, surgiram vírgulas, pontos, pausas e advérbios e...
E assim nas entrelinhas contei uma história.
Quem imaginou, criou por si e me deu os créditos.
Mas na verdade a história é sempre do ouvinte ou do leitor...
Então entendi que a palavra não dá conta do intelecto...

Quanta ironia!!!

Foi só uma provocação dialética."

Milla Borges.


www.twitter.com/millaborges

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

, mas a vida é boa...

Olá sonhadores!!!

Quanto tempo!

Sumi por uns tempos para organizar a vida e colocar a cabeça em ordem...
Sabe... Muitas mudanças e algumas novidades!

Uma das novidades é que estou lançando o livro "Fabricante de Sonhos", totalmente inspirado neste blog!
Desde já agradeço a todos vocês por tudo!!!
A última correção ortográfica já foi feita e agora só faltam mínimos detalhes para que eu possa divulgá-lo. Em breve postarei aqui mais informações sobre o livro. O fato de ter conseguido escrever esse livro me deixa muito feliz! É uma realização pessoal e espero que este seja apenas o começo...

Quanto as mudanças, as novidades são outras... Estou passando por uma fase de redescoberta de mim mesma, quase um renascimento e tendo muitas questões para serem resolvidas e esclarecidas ou pelo menos pensadas... Não tenho postado aqui no blog, mas tenho escrito muito... Minha alma fala e eu escrevo por necessidade! Porém, os textos que tenho escritos não cabem nesta fábrica onde tudo é feito a base de sonhos e poesias... Esta minha nova fase é o misto do caos de quem possui conflitos e da alegria de quem descobre uma nova essência, uma nova filosofia de vida... Então, estou criando um novo blog chamado: Alianatio Mentis, que ficará hospedado no meu site. (Ah! Esta é outra novidade! Agora vou ter um site!).
Não abandonarei a fábrica, isso nunca! Muito menos os blogs amigos... Estarei sempre por aqui e com vocês!

Agora, para matar a saudade dos versos, uma poesia que reflete um pouco este meu novo momento, que já começa com uma pausa e é totalmente reticente...


, mas a vida é boa...

Tudo poderia ser diferente...
Realidade menos ilusória.
Para construir uma nova história
Não precisaria ser muito inteligente
Ou falsificar uma identidade provisória
Para se sentir mais gente.
Mas o caminho a ser escolhido
Sempre foi o mais escuro
E o mais difícil a ser seguido
Mais perigoso e divertido
O mais longo e o mais duro...
Pra quem já está perdido
Gozar a vida é só o que resta,
Fingir que vive e a vida é boa
E sair por aí a toa
Apreciando o que não presta!
Sentir-se como pássaro que voa,
Como se tudo fosse festa!
E conservando o mesmo jeito,
Pois se mudar, não mais existe.
A tudo aquilo que resiste
A tentação de ser perfeito,
E assim no erro insiste
Aprisionando a dor no peito.
Mas sem culpa avançam os dias...
Sem direito ao sofrimento
Só os prazeres do momento,
Multiplicando as alegrias
Espalhando pelo vento
Um bom disfarce de agonias...

Milla Borges