quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Coisas da Milla



Leve como uma pena estava eu a flutuar no meio de um sonho.
Eu tinha ciência de que sonhava, mas não podia nem queria me despertar...
No sonho tudo é tão lúdico quanto encantado! As dimensões pregam peças aos nossos olhos, e o tempo, tem um tempo diferente...
Meus pensamentos são empíricos, portanto, me sinto em casa e de pernas pro ar...
Tenho apenas uma pequena noção dos espaços... Meu subconsciente se encarrega dos detalhes.
Dou cambalhotas ao vento e saltito de nuvem em nuvem, porque aqui, a gravidade obedece a minha lei. E a minha lei é a liberdade!
Neste sonho, leve eu estava e leve eu voava para dentro de mim mesma... Mergulhava em sangue vermelho vívido, escorregava feito como se escorrega em tobogã por artérias e veias... Glóbulos brancos bailavam, pulsavam, brincavam de fazer o corpo funcionar!
Meu corpo todo era energia e emanava uma luz azul brilhante, como água do mar que brilha ao ser tocado pelo sol!
Era eu, inteirinha pulsando em sonho! Viva para aquela doce realidade ilusória...
Joguei-me então no mar dos meus desejos, onde cores, sabores e aromas explodiam em mim, como fogos de artifício.
Tudo brilhava em águas brandas e mornas. Era uma acolhida!
Peixinhos fluorescentes nadavam comigo e rodeavam meu corpo, cantando cirandas e rodando, rodando, como o mundo que gira, e gira e a gente não sai do lugar! Em coro, nós cantávamos e sorríamos em reverência ao lindo sol que despontava no Céu, um Céu cada vez mais azul anil!
Ondas me levavam para lá e para cá e num repente estava eu imersa em fantasias e flores, todas as flores, de todas as cores, como num sólido jardim gigante! Estava eu tão miúda, sendo pólen de flor, eu estava germinando! Era eu donzela rosa, a procura de um cravo bem amarelo! Eu tocava com meus olhos o horizonte, mas não via o cravo. Todas as cores e onde está o amarelo? Eu não via!
Era eu rosa cor de rosa a procura de um amarelo... Distraí-me com o colorido da borboleta!
E que linda borboleta! Fui com ela plainando sobre os girassóis! Borboletando, borboletando!
E nos girassóis, meu amarelo apareceu para me abraçar tão docemente... Que sensação agradável!
Quanta alegria resumida nas cores das flores! No bater das asas da borboleta bonita!
Como num passe de mágica, surgiu ao longe, para acariciar meus olhos, um encantador arco íris! Feito de tinta guache e purpurina!
Era a confirmação de que as cores me sorriam! Parte de um sonho embrulhado para presente!
Aceitei de muito bom grado!
Corri para verificar se acharia nas extremidades do arco íris um pote de ouro e mel!
Uma chuva bem fininha começou a cair, mas não era água o que as nuvens derramavam. As nuvens se desfaziam em jujubas coloridas! Cores! Mais cores! E mais!
Doces!
Que doce sonhar!
E o que achei na extremidade do arco íris foi algo ainda maior e mais bonito que ouro! De um esplendor fantástico! Era um universo azul royal, com estrelas prateadas piscando, faiscando fagulhas de paz para alegrar a lua! Havia uma festa naquela noite! Pois é, anoiteceu e tudo se iluminou.
Era um prateado tão intenso e belo que meus olhos lacrimejavam de emoção...
Na festa noturna e prateada, teve valsa e teve samba... Os astros se reuniram para sonharem junto comigo...
Cometas, luas, estrelas, sóis... Eu, estrelando um sonho meu!
Eis que um relógio feito de ouro badalou as horas do fim...
Mas já?
Ahhhh não! Só mais um pouquinho...
Porém o despertar estava quase, quase...
Agarrei-me a uma estrela cadente e desci com ela para o solo macio e fofo, feito de lençóis e colchões e almofadas e...
Abri os olhos...
Era dia!
Foi um sonho tão bom e tão lindo...
Fiquei um tantinho ainda deitada, olhando para o teto do meu quarto relembrando cada momentinho do que naquela noite, vivi sonhando...
Levantei-me.
Quando de repente pus a mão nos bolsos do pijama e...
Oh! Que surpresa...
Em um bolso havia jujubas coloridas...
No outro, um lindo girassol amarelo!

Milla Borges


domingo, 1 de agosto de 2010

A falta


Meus dias nunca mais foram os mesmos...
Tornaram-se frios à medida que a saudade foi vagarosamente, dolorosamente, se instalando em cada um de meus espaços.
Em todas as palavras, há essa falta.
Em cada canto da casa, há essa falta.
A falta mora em minhas lembranças, no meu passado.
Faz parte do meu presente, e certamente, me acompanhará nos passos futuros...
É algo assim, como uma ferida que nunca cicatriza, sabe?
Um universo de solidão instalado no peito e ativado a cada data especial, a cada cheiro familiar, a cada música de Chico Buarque...
Quando tudo o que preenche a alma se esvazia, o coração chora.
Hoje, meu coração é uma poça salgada de lágrimas...
Um dia, o que foi tirado de mim, causou uma dor eterna.
Não sou inteira.
Como ser, sem o meu melhor e mais precisos pedaço?

Eu sinto falta...


Dos cafés da manhã na cama...
Das bolinhas de sabão na janela do 4º andar...
De dar milho aos pombos na praça XV...
Das filosofias acerca das canções de Secos e Molhados...
Das sextas feiras de pizza e vinho no Baixo...
Dos papos... Risadas... Da amizade. Do amor...
Daquele abraço.
O abraço...

Eu lembro tanto...


De quando me deu o livro Água Viva da Clarice...
(E Assim, despertou uma paixão que ainda hoje, vive)
Dos Natais em que se vestia de Papai Noel...
(O meu Papai. O bom velhinho)
Dos sonetos de Vinícius de Morais que recitávamos...
(Nosso favorito, Soneto da Fidelidade, que hoje, tanto me serve)
Do Jardim Zoológico e do parque de diversões...
(As brincadeiras do Macaco Tião / Nós dois na montanha russa)
Do meu quarto que um dia foi pintado de lilás...
(E nele, tudo se acabou...)

Levo de você a mania de ler, o prazer de escrever, a habilidade para os vícios, o coração bom...
Guardo comigo, seu cheiro, sua lembrança, suas fotos, seu jogo de xadrez, seus livros, seus poemas...

Sempre terei tuas marcas em mim...
É com a tua imagem que eu quero sonhar...

Sempre haverá um bom momento nosso para ser lembrado...
É o seu sorriso o que eu quero imaginar...

Sempre guardarei todas as tuas palavras de carinho...
É a sua voz que eu insisto em escutar...

Sempre haverá a falta...
Para sempre faltará...

Milla Borges




Aproxima-se o dia dos pais e eu só desejo que receba o meu amor, onde quer que esteja.

Que Papai do Céu te guarde...