domingo, 26 de setembro de 2010

Ode (silenciosa) à solidão



Pelos laços desfeitos
Por nossos defeitos
Pelo que não dá certo
Por todo desafeto...
- Brindemos à solidão!

Pela causa perdida
Pela paz escondida
Por todo tormento
Por cada lamento...
- Brindemos à solidão!

Pela escolha errada
Pela voz abafada
Pelo caos instalado
Pelo amor alterado...
-Brindemos à solidão!

Pela dor verdadeira
Por toda cegueira
Pelo ato da maldade
Por toda falsidade...
- Brindemos à solidão.

Salve toda hipocrisia, as conversas vazias,
Essa superficialidade, Salve!
Salve o desinteressante, as relações distantes,
O peso da iniqüidade, Salve!
Salve a ilusão do eterno, os romances modernos,
As tentações e deslizes, Salve!
Salve a solidão dos amantes, os amores errantes,
Os finais infelizes, Salve!

Para os becos, saída
Para a morte, a vida
Para o frio, calor.
Para o beijo, abraço
Para o tempo, cansaço
Para o mundo, amor.

Para os casais, ofício
Para as brigas, desperdício
Para os perdidos, direção.
Para seguir, caminhos
Para os outros, carinho
Para mim, solidão.

...
(Porque às vezes me é preciso.)



Milla Borges


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sui Generis


Rosto angular
Sorriso largo, eu e meus olhos.

Rateio de almas, metade/metade

Estou cheia de fatos. Estou farta.
Procuro uma ação que me falta...
Um entendimento que me preencha.
Qualquer coisa que faça sentido...
O não sentido me desnorteia... Não tem limitações.
Tudo o que vivo é algo solto no mundo...
E o que se solta, se perde...
Eu presa me perco, livre me acho.
Num lugar que nunca estive.

Quantas de mim há no mundo?
A pausa.

Há a pausa.

Não sou o que segue. Sou o que fica.
Imersa em alienações da mente.
Sugando o gás carbônico.
Fazendo fotossíntese de mim mesma.
E eu que me alimento de mim...
Me invento?
A cada instante, almas em um só corpo.
Pensamentos em uma só cabeça.
Um ponto, uma vírgula.
Eu: Ponto e vírgula.
Pausas para respirar. Inspirar para dividir o tempo.
Divisão de opostos. Metade/Metade.


Tenho os dois pólos.
Positivo e negativo.

Uma carga magnética. Poder gravitacional.

Atraio. Energia vital. Elétrica.
Na calma estranho o tempo e mostro os dentes.
Nem para sorrir, nem para rosnar.
Embora meus instintos sejam primitivos e animais...
Tem a arte correndo em minhas veias.
Sou a inspiração da Monalisa.
Da Vincci já me conhecia muito bem...
Rateio de almas.
Metade era eu, a outra era ele.
Não sou um rascunho e nem obra prima.
Sou apenas a pulsão artística em sua essência.
Que fique claro: Sem nenhuma técnica.

In vino veritas
Uma grande mentira

Um gole de sinceridade, sim?
(A arte que é cópia e ilusão)
(A arte é a minha verdade)
(Minha vida, uma mentira)

Arrasto-me da realidade para fora da vida.
A velocidade do vento é o meu transporte.
Para que o real, se nada é, de fato?
A verdade se encontra na desordem das coisas...
O que se desmonta traz consigo a verdade dos pedaços...
Cada pedaço das coisas é uma coisa em si...
Cada coisa em si, quando se junta, forma a ilusão.
Eu sou parte da ilusão. Metade/Metade.
Formando um todo verdadeiro.

Nas letras, me encontro.
Palavras e fragmentos

O pingo do “I” me agrada.
- Nas letras a origem.
Sons, rabiscos, gestos
Tudo é intuitivo. O Intuito é a comunicação.

Eu nasci de um alfabeto.
Nomeio coisas sem nomes, por divertimento.
Não há o que exista sem palavras.
Cada nome é um conceito. Uma identidade.
Meus conceitos me refletem... E eu sou um nome.
Nome não tem documentos. Alguém me identifica?
Nada me conceitua...
Cada letra é uma arma mortífera.
Cada som de cada letra... Um código.
E qual o sinônimo da vida? (sentiu a pressão das palavras?)
Dangerous!!!!
Eu sou o antônimo de.
Eu sou a sílaba tônica do mundo.
(Ando nas extremidades, sempre na ponta dos pés)
Rateio de almas, metades e partes.
Silaba a silaba eu conto a minha história.

Não há igual a mim.
Nem igual a você.
Mas esse mundo de meu Deus é tão grande...

Unicamente.
Única mente. A minha.

Rateio de almas/ Metades dos corpos
Cabeças inteiras se partem...

Somos feitos a mão.
Cada um é um só.
E afinal? Quem sou eu?
Sou uma digital.
Mas sou uma digital única.
Pessoal e intransferível.
O meu jeito, o meu sorriso, as minhas palavras...
Podem até imitar... Porém nunca vão se igualar.
Uns dizem: É diferente!
Outros bradam: É louca!
Sou tudo isso, de maneira peculiar.
Sou nada disso, de maneira previsível.
A surpresa da unidade e da não apreensão do futuro.
É o que me constitui em cabeça, tronco e membros.
Membros fortes, cabeça muitas vezes fraca, fraca...
A força é toda do pensamento.
(Se for pra gritar, eu grito.)
(Se for pra chorar, eu choro.)
(Na hora de silenciar, me calo.)
Única pessoa de muitas personalidades.
Um monte de mim em apenas um eu.
Rateio de almas.
Um pouco pra mim. Outro tanto de mim pra você.
(Ou a quem interessar possa...)

Um tanto de médico. Boa parte de mostro.
Cheia de imperfeições que fazem de mim, única.
Carrego nas costas erros eternos.
Eu sou um erro da natureza. Uma falha pura.
Uma anedota divina.
Afinal, meus acertos não falam de mim.
O que eu erro, diz muito mais a meu respeito.


E nesta empreitada de descoberta...
Para tentar saber um pouco quem (ou o que) sou:
Escrevo.

Defino assim: Sui generis
Rosto angular
Sorriso largo, eu e meus olhos.

Rateio de almas, metade/metade.

Milla Borges