quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Princesa Urbana


Logo cedo no meu reino o dia é inventado.
Muito cedo o som do despertador rasga o silêncio da manhã e me chama para a vida.
Eu, obediente, me permito abrir os olhos devagar. Desprendo-me do sonho real.
Faço manha para os meus lençóis... Estico-me e acordo cada parte de mim.
Do alto da minha torre, posso ver o sol e o seu calor passa a ser o meu motivo.
Tomo um banho gostoso... Óleo de amêndoas doces, cheiro de jardim florido.
Jeans, All Star, make up.
Dou uma olhada no espelho.
Não... Hoje não vou usar minha coroa de princesa... Nem grinalda... Nem enfeite.
Hoje, como ontem, como todos aqueles ontens, serei simples.
Na minha simplicidade encontro minha beleza. Minha realeza.
Espelho, espelho meu! Existe alguém mais princesa do que eu? Não.
Não existe. Fato.
A rua me chama. Obedeço. Sou engolida por ela.
Seu cinza me encanta! Como é poético o cinza urbano... É acolhedor! É maravilhoso.
[...]
Carruagem coletiva a caminho do ofício.
Fone nos ouvidos, sons que me tiram da órbita... Eu apenas observo os transeuntes.
Engraçado como todos os rostos nas ruas são tão previsíveis. Cada expressão, cada nariz, cada gesto... Reconheço todos no meu reino, sem conhecer de fato. Invento suas vidas no meu pensamento...
Com a generosidade de alteza que me cabe, distribuo sorrisos por onde passo...
[...]
Chego ao local do ofício e exerço bem a minha função... Passo manhãs e tardes em meio a números mágicos que de certo modo me dignificam...
Olho a plebe pelas calçadas na hora do banquete. Me dói alguns meninos... Pequenos príncipes abandonados virando sapos, virando ratos... Vivendo num sub-reino que a realeza finge não existir. Mas é real... Nem sequer é cenário de algum conto de fadas...
Evito aqueles olhares... Eles me causam remorso, por algum motivo...
[...]
A tarde surge encantada... As horas escorrem pelas paredes, o tempo voa em sua sabedoria infinita...
Há cansaço. Não há suor porque princesas não suam...
Risadas, pausas, café para recobrar as forças!
(Um segredo de princesa: Há uma felicidade escondida no café das cinco)
Pouco a pouco, me dou conta que a minha realidade existe entre os sonhos... Os meus, e os dos meus... Porque acolho aqueles que comigo passam suas horas bem embaixo de minhas asas...
[...]
Num instante a escuridão invade o reino e tudo o que eu quero é estar de volta ao meu palácio...
Mais uma vez, a carruagem coletiva é o meu transporte (embora, neste momento sempre anseio por um tapete mágico... Daqueles que voam... Mas como disse, sou princesa e não fada. Não tenho poderes... Ainda não.)
Mas o barulho dos carros faz meu coração acelerar! Sinto uma ansiedade, uma agitação interna como se o mundo estivesse por um fio! Como se a menina do circo, andasse na corda bamba sem a rede de proteção... Eu gosto um tanto dos sinais de transito e suas luzes...
Ao longe vejo morros e colinas, cobertos por luzinhas... É tão melódico! Tão artístico...
Sinto de perto a essência das coisas... As pessoas por um triz.
A vida, sendo vivida no escuro.
A noite me faz bem... Seus mistérios e seu azul marinho... Tudo muito excitante.
[...]
Chego ao meu palácio e uma saudade louca me invade o peito... Ele queima de amor.
Ligo para o meu príncipe e uma paz verdadeira toma conta de mim... Ele é meu vício bom...
Nossa história tem sido escrita com tanto carinho, com tanto amor, que já posso ouvir os acordes do final feliz!
Após o afago da voz de meu príncipe encantado e imperfeito, tomo um banho gostoso... Óleo de amêndoas doces, cheiro de jardim florido.
Roupas leves e alvas para o corpo se sentir amado...
Não possuo bola de cristal, mas duas telas me divertem um pouco... Fazem as vezes de um bobo da corte! Numa vejo a vida inventada. Noutra vejo a vida do jeito que as pessoas do reino gostariam que ela fosse.
Em ambas as telas, tudo é muito fictício... As pessoas são um tanto plásticas... Pouca gente tem coragem de ser o que é.
Pouca gente tem coragem de ser.
Perco tempo. Ganho rugas. Passo cremes.
Sinto o tempo...
Espelho, espelho meu! Existe alguém mais princesa do que eu? Não.
Não existe. Fato.
[...]
Do alto da minha torre, posso ver a lua e o seu prateado passa a ser a minha inspiração. O meu objetivo.
Eu sinto vontade de celebrar a vida.
[...]
Como uma bela adormecida, o sono lança em mim o seu feitiço e eu busco aconchego em meus lençóis...
Como anjo em nuvem, adormeço.
Há uma entrega verídica ao mundo dos sonhos, onde a magia rege a vida real.
Todo o meu reino dorme comigo. Todo o meu reino sonha comigo...
Todo o meu reino conta minha história...
E por fim, só uma frase ecoa no espaço...

“E viveram felizes para sempre”

Milla Borges