segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Frívola


Sacudi o pó de todas as palavras que estavam guardadas e envelhecidas...
As desembrulhei cuidadosamente, para que elas não se quebrassem, não se partissem...
O trato com as palavras sempre foi um tanto dificultoso para mim. Não sei lidar com a fragilidade alheia. Eu, frívola (De um modo peculiar), -totalmente contraditória, - não sou muito boa com as palavras.
E já faz tanto tempo antigo...
Mas o fato é que mesmo antigas, elas são minhas. Essas palavras são minhas...
Manusear palavras velhas é um trabalho que requer muito cuidado, muito carinho e entendimento e mesmo a minha erudição, não me permite compreender totalmente a vastidão dos significados que essas palavras arrastam na minha face, para que meus olhos as leiam, para que meus lábios as balbuciem.
Entrelaçadas estamos, eu e as letras... A dependência é física. A insuficiência é psicológica.
Há ainda, uma poeira branca e fina sobre cada palavra do passado.
Às vezes, tenho a impressão que sou eu quem pertence a elas e não elas a mim... De certo modo elas me controlam tanto, têm tanta influência sobre minhas decisões, meus caminhos, meus “eus”. Meus dias, meus ontens, meus amanhãs... Todos dominados por palavras vivas, por palavras de um tempo que não havia acentos possíveis, porque tudo era tão linear.
Eram somente palavras... SÓ palavras...
Antigamente eu não tinha consciência de sua importância...
Com o passar do tempo, entre tantos escritos, entre tantos timbres, percebi que havia nelas certo poder. Nas palavras havia um mundo novo e isso era fascinante para minha mente nova. Palavras velhas repletas de força! Um poder. Dor e alegria, o poder vinha de suas entonações.
Em suas sílabas tônicas. Suas verdades átonas... Tudo causava em mim grandes hiatos...
Eu as queria o tempo todo comigo, as palavras.
A verdade então é que fomos sempre muito amigas. Eu dona. Elas propriedades.
Aprendi a colocá-las, a direcioná-las. Aprendi a gostar de todas as palavras... Todas elas: belas, sujas, tristes, sólidas. Eram minhas e eram para mim.
Manipuladas por mim. Usadas por mim. E assim, havia felicidade em minha vida.
Havia sim.
Deu-se em tempos turvos um cansaço. Um desapego momentâneo. Passou...
Na hora do silêncio, sempre houve um respeito profundo. Tanto que as palavras davam logo um jeito de desaparecer, para que então o silencio se instalasse.
Nunca houve rixa entre palavras e silêncios...
Cada um sabia de sua importância para mim.
Cada um deles tinha o seu momento, a sua hora, o seu lugar na minha vida.
Em geral, o silêncio chegava manso e branco. Úmido e salgado. Um silêncio de lágrimas.
Tenho uma relação bonita com o meu silêncio... Por vezes nos estranhamos, mas entre nossas pausas, há um amor doce.
Hoje, resolvi então embrulhar o silêncio e guardá-lo no lugar das palavras...
Hoje eu quero é ficar com minhas palavras velhas, me perder com elas...
Quero tocá-las com a alma. Quero as palavras usadas.
Quero envolvê-las com pensamentos indefiníveis, quero a coerência de suas entrelinhas...
Quero jogá-las para o alto e dar-lhes asas, como sempre fiz...
E por ter asas é que de tempos em tempos novos, elas voam para longe... Fogem de mim...
E quando as recupero, sinto a necessidade de guardá-las, para que nunca mais me abandonem...
Por este motivo é que as páginas de minha história estarão sempre incompletas...
Por este simples motivos, sempre haverá pó em minhas palavras velhas...

Milla Borges