domingo, 25 de setembro de 2011

Muito além das palavras pequenas que tenho...



- ...
- Você gosta de que?
- Gosto de palavras.
- Que tipo de palavras?
- Todos os tipos, menos as que doem.
- Hum...
-Você é uma palavra...
-E você gosta?
-Gosto sim...
-Eu gosto de você. E isso é uma afirmação. Não tem um “acho” na frente.
-É porque eu também sou uma palavra...
-Pode ser...
-Quer algumas palavras de presente? Posso te dar.
-Não sei... Tenho um pouco de receio. Não lido muito bem com as palavras...
-Mas as minhas são um pouco mágicas. É que saem de dentro, sabe. Não surgem na boca ou nos dedos... Surge do ventre, da barriga... Ou daqui ó. Do peito...
- É? Você me doaria algumas, então?
-Sim... Mas antes, você precisa me dizer uma palavra também.
-Ué, você não disse que me daria palavras? Porque está me pedindo uma agora? Já te disse que não me dou muito bem com elas...
- Me diz uma. Uma que saia da boca mesmo. Junte os lábios, force a língua. Alguma palavra vai sair. Sem a sua palavra, não tenho como fabricar as minhas...
- ...
- Mas tem uma coisa... As minhas palavras, enquanto estiverem saindo de mim, continuam sendo minhas... Só passam a ser suas quando eu terminar e estiver vazia. E aí, faça delas o que quiser. Se servir, as utilize. Caso não sirva, deixe que o vento as leve. Entendeu?
- Entendi...
- Me dá uma palavra agora!
- Amor. Só isso pode ter em mim e só isso posso te dar. E te dou a palavra amor...
- Amor... Sei que minhas palavras são poucas, mas o que me move ao ganhar essa palavra é um impulso livre. Um vento bom...  E as minhas palavras são tão pouquinhas e insuficientes para doar amor... Mas uma coisa eu te digo, tudo que te dou a partir do amor, sai do coração. Não existe simplesmente porque existe. Existe porque precisa viver, precisa ser sentido. Vai além, muito além das palavras pequenas que tenho... É a semente que por amor recebe água. Que por amor à água, resolve brotar. E por brotar ama mais e floresce. Amor floresce. Amor é flor. E por amor à flor, surgem mais sementes. É tudo aquilo que também por ser muito até dói. Mas o que fazer da dor se não se sente nada além que uma vontade imensa de amar... Não sei ao certo quanto tempo o amor morou em mim, mas ele está aqui agora... Não é tão leve, nem tão claro como a água nem tão bonito quanto à flor. Mas é real, é honesto, é luz, insistindo em iluminar o breu do meu coração. Amor não é feito pra entender, não é feito pra definir, não é feito pra se achar. É feito pra confundir, pra se perder, pra criar sorrisos...
Não sei ao certo quanto tempo o amor morou em mim, mas ele está aqui agora.
Mais do que todas essas palavras, pegue pra você o que há entre elas, por dentro delas... Seu peso, sua textura, sua consistência... Sua essência. Esqueça os significados, esqueça os conceitos e só queira sentir... Por que, posso não saber por quanto tempo ainda o amor permanecerá, mas ele está aqui agora...
- ...
- Que?
- Nada.
- Ai ai...
- Senti. Senti o seu amor...
- E...
- Não sei usar as palavras, mas estou sentindo. Estou cheio de tudo que disse. De cada palavra que me deu. E que agora são minhas.
- ...
-Que foi?
-Nada.
-Nada não... Cadê seu brilho?
-Está aqui em algum lugar... É que agora estou vazia.
-Vai passar...
-Eu sei que vai.
-E, sabe... Você não está assim tão vazia... Sobrou o amor. Eu o sinto aqui...
-É. Ele está aqui agora... Que se demore...

Milla Borges


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

É só mais um desses sentimentos que resolveram não morar mais em mim...

Acredito que a vida possa ser leve.
Talvez seja, para aqueles que não praticam tão intensamente o exercício do pensamento. Mais que pensar, o peso que cai sobre mim deriva dos muitos sentimentos que absorvo e trituro em meu interior.
 Não há um filtro. Eu mesma me tornei o próprio filtro.
Tudo o que chega até mim através dos sentidos passa por todo o meu ser, para depois se instalar ou ir embora... Não importa.
Tudo passa por mim. Tudo sinto. E nada fica igual.
Essa carga de instabilidade que transpassa a vida traz consigo grandes mistérios...
 (...)
Acho que estou cansada...
Não cansada da vida, ou cansada de viver. O que me cansa é o esforço que faço para me manter viva. Viver tem exigido muito de mim...
Bem, talvez se não houvesse o esforço também não haveria graça. E tenho que admitir: A vida tem graça! Está cheia de graça. Faz graça. É de graça.
(O que custa caro é o preço que pagamos pelas escolhas que fazemos).
No mais, quero que fique claro que, o que aqui declaro não é uma reclamação, tampouco um protesto ou algo do gênero. Longe disso! É só mais um desses sentimentos que resolveram não morar mais em mim...
Eu só queria descansar um pouco... Por uns tempos...
Não falo de um descanso da vida, mas sim a uma pausa nos sentimentos.
Dar um tempo nas verdades das sensações.
O que sinto hoje é um desejo profundo de neutralidade, de ignorância. Desejo de ausência...
(Mas até o desejo é uma sensação).
É... Pode ser que eu não ande mesmo muito bem da cabeça, mas me ocorre uma felicidade larga quando penso numa vida branca...
(Mas até a felicidade é um sentimento).
O que de fato me importa, é que apesar do peso, de todo cansaço, a minha alma ainda está inteira! E o meu corpo, mesmo relutante, está preparado para mais esforços.
Afinal, meu “eu” quer mais é viver do jeito que for.

Milla Borges


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Tentativa infeliz


O que seria se não fosse tudo o que me aconteceu? Desde que nasci? Tudo o que me aconteceu... O que seria de mim se fosse tudo diferente?


Eu tenho uma curiosidade profunda pelo passado, que gera o presente, que cria o futuro...
Estou aqui sem te reconhecer, sem saber quem és, rasgando a porra do peito o peito.
Eu então que acredito na vida, na minha hermética vida, a explorar cada canto meu que eu não queria que soubessem... Revelo meus esconderijos sem saber e quando percebo, todos já sabem de mim.
É que me acostumei com porra da a insegurança. Essa coisa que me cega e me faz viver na corda bamba e cada passo. E é tão difícil caminhar...
O que fazer de mim, meu Deus? O que fazer????
Eu seria uma morte aguda e profunda e cética se não fosse tudo o que vivi...
Eu seria um nada tão nada quanto o cuspe do cara bêbado na calçada... Por que tudo que não fez sentindo, continua não fazendo. Não muda não. Não faz sentido. Aceite esta merda, se quiser!
 Então eu questiono... Precisa fazer sentido?
Precisa.
Porque eu morri várias vezes para renascer.
Muito prazer. Meu nome é Fenix renascida das cinzas, do breu de porra nenhuma.
O que eu tenho, agradeço por ter. O que não tenho, procuro culpados.
Quero a minha vida do jeito que ela existe na minha cabeça. Isso sim faz sentido...
Eu vivo como se cada dia fosse o último e caio, e faço merda e recaio e falo coisas... Muitas coisas, das quais me arrependerei depois... (e remorro, e renasço)
Não sei. O não saber me dá a mão agora e me guia. Dê-me também a sua mão. Você que eu desconheço me salvará de mim.
E o que fazer da saudade filha da puta esmagando meu peito?
Eu sei disso. Que merda... Olha eu bancando a Blanche DuBois... Mas há um “Bonde chamado desejo”...  Há também um Bonde chamado angústia.
E é nesse que eu vou...
E parto.
Sem saber de mim.
E me entrego. Entro na minha escrita, minha vida, minha história, minha angústia...
Entrego tudo a ti, que não conheço.
Me salva!


Milla Borges

segunda-feira, 11 de julho de 2011

...

Te admiro por “N” motivos, mas o que me fascina, e muito, é a sua calma.
Seu jeito manso de tornar a vida simples, de aliviar tensões.
Não é bem só o sua mansidão que me encanta... Devo confessar que sou completamente apaixonada pelo seu silêncio. Te juro que se eu pudesse ficava só ouvindo o seu silêncio, tão cheio de tudo. Mas tudo bem... Quando você resolve falar, nas suas pausas encontro meus pedacinhos... Vou me fazendo, me formando, me transformando por meio de tudo que sai da sua boca.  Queria ter o dom da paz, assim como você... Se nós fossemos sinais, certamente eu seria um ponto de exclamação e você, reticências... Dessas que deixam o pensamento fluir ao final das frases.
Não é comum encontrarmos a placidez nos rostos que vemos pelas ruas e é bem na sua face que essa calma toda aparece. Nesses olhos tranqüilos, tranqüilos... Porque eu descobri que seus sentimentos mais bonitos moram no coração, mas chegam aos seus olhos, essas janelas negras e vivas, suaves e resplandecem, florescem, refletem, iluminam o que é possível ver.
Eu me vejo dentro dos seus olhos. O espelho mais bonito de mim. A imagem minha que eu quero conservar para lembrar num dia futuro...
Sabe, gosto mesmo desse seu modo esperançoso de ver a vida. É uma razão para acreditar nos sonhos... Quando me fala seus planos, quando me conta seus segredos, quando sussurra baixinho no meu ouvido, penso: “Se é fácil ou difícil... Não sei... Só sei que é possível” porque você consegue isso, você faz essa mágica! Transforma em possibilidade aquilo que o meu olhar endurecido descarta como hipótese. E assim, até eu amoleço...
Estou aprendendo... Pouco a pouco, despindo de mim a ressaca, tragando a calmaria.
Deixando a sua calma, fazer a minha cabeça...
                   
Milla Borges

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A dona do mundo

Ela possui um poder de persuasão incrível.
Com apenas um olhar, toma o mundo em suas mãos. Ela é assim. Ela convence.
Usa de artifícios tão primários, como sorrisos, leitura corporal, palavras simples... Se utiliza do simples para ganhar as pessoas.
Sua conversa envolve, sua inteligência impressiona, sua existência traz alívio. As pessoas pensam: “Que bom que existe alguém assim no mundo” e amá-la é muito fácil.
Ela parece não ter muitos problemas.  Tem um riso solto, riso fácil. Seu bom humor chega a irritar, às vezes.
Ela escraviza as pessoas.
Seres humanos podem virar fantoches em suas mãos, se assim ela desejar.
Não há nada sobre ela que não tenha sido dito. Mas por alguma razão, preciso escrever...
Alguma coisa mais forte que eu, me impulsiona a contar toda verdade... Porque, só eu sei da verdade. Só eu a conheço por dentro.
Pude conhecê-la de perto, bem de perto...
Gosto dela, apesar de tudo... Mas a verdade precisa ser dita então afirmo: Ela é uma fraude.
Fraude. Com todas os fonemas, as sílabas, as letras. Uma farsa. Uma farsa tão bonita...
Exatamente. Ela não é esse poço de felicidade... Ao contrário, ela é triste, ela sofre. E a decepção foi enorme quando descobri tal coisa. Como assim, ela sofre? Sim... É muita dor, é muita angustia naquele peito pequeno...
Seus defeitos são os piores possíveis... Fere tanto.
Ela possui um histórico de mortes. A cada dia que se passa ela se mata um pouco mais, e mais, e mais... E isso não tem fim. Não tem limite. Porque ela é assim. Foge do seu controle. Ela é perversa demais consigo mesma. E má.
Por vezes desejou, planejou o mal. Mas todo mal que conseguiu fazer foi a si mesma, e tudo isso, sorrindo. Hábil demais com as palavras, gentil demais com todos.
Ela fica ali, quietinha, só administrando o caos... E ela é muito boa nisso.
Há dentro dela, apesar de tantas e tantas pessoas à sua volta, uma solidão fria e crescente... É tão triste vê-la morrer. Tão triste.
Grito: “reaja, sua maluca! Reaja”. Ela me lança aquele olhar doce, terno... E volta-se para sua tortura. Seu coma induzido.
Ela confunde os meus desejos de vida e morte. Ela me ensina a pesar a vida. A vida vale tanto agora e daqui a pouco perde totalmente o seu valor! Quanto vale, viver? Vale a pena? E então, ela me dá a mão e eu penso “Vale. Vale a pena”.
A verdade é que ela não sabe lidar com seus pensamentos, ela não consegue controlar suas emoções... O que fazer, com uma neurótica em potencial? Pegue seus sentimentos e jogue todos eles pela janela!
O que fazer com alguém que vive com tanta dificuldade e ainda consegue doar a tranqüilidade que eu preciso?
Ela é vício. Me dá segurança... Mas ela própria, coitada, já perdeu a conta de suas misérias...
Quero ajudá-la, mas como ? Se ela mesma não consegue salvar-se de si.
E ela ali, quietinha, só administrando o caos...
Apesar de todo seu exterior desmentir seu interior, ela consegue ser linda...
A vida parece tão leve quando estou com ela. Mas dentro dela, a vida pesa.  A existência pesa. Uma tonelada. Duas!
Vou confessar uma coisa... Às vezes, sinto vontade de matá-la. É... Sou invadida por um instinto assassino e quero matá-la. De raiva. De dó. Para lhe dar a redenção.
“Morre logo, droga!” Penso quase todas as noites... “Morre, por favor, morre...”
Mas ela é teimosa. E vai viver. Só para mostrar para a vida que apesar de todos os pesares, ela está no controle...
Ela coloca tudo numa balança, e pesa sua existência.
E ela só vai morrer, no momento exato da morte.
E ela vai continuar sorrindo, enquanto tiver dentes para exibir.
E ela vai sofrer, por não saber outro modo de vida.
Afinal, sua vida vale exatamente o quanto pesa.

Milla Borges


domingo, 22 de maio de 2011

Mundo replay


Não há originalidade!
Adeus mundo repetitivo! Quero o divórcio.
Não sigo contigo para o mesmo.
Só vou aonde houver a novidade!
E há este lugar, mundo replay?
Talvez haja, longe daqui...
O que consigo tocar com meus olhos são as mesmas palavras de sempre.
Sentir o cheiro dos mesmos perfumes.
Todos os dias, os mesmos caminhos...
E tudo se repete.
Repete.
Repete.
Nada se cria tudo se... Repete.
Repete.
Repete.
O cansaço dos mesmos rostos, das mesmas vozes, mesmo mundo, mesma vida.
Todos os dias, as mesmas vinte e quatro horas.
Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac.
É sempre o mesmo mesmo. Sim, o mesmo mesmo de sempre e sempre.
O ontem, por exemplo, é o prenúncio do hoje. E o hoje não passa de uma cópia do que será o amanhã...
(Ou o amanhã é a cópia o hoje? Enfim, não importa!)
A vida passa, os dias passam iguais.
A minha vó vê mudanças, eu vejo disfarces daquilo que já havia...
Aliás... Vamos entrar mais a fundo nessa história:
Tudo é cópia da cópia.
Desde o começo é: ACREDITE! É.
Oh! Estraguei a surpresa?! Desculpe... Mas É assim mesmo.
Não há nada que seja novo.
Tudo já estava ali ó, na natureza...
Somos apenas capazes de cópias, simulacros...
Aaaaah! Faça-me o favor.
Eu quero que alguém invente uma nova água, um novo ar para respirar...
Vai inventar? Vai criar uma nova escrita, um novo ser, um novo povo?
Coisa nenhuma! Vai é maquiar o que já é.
É assim que funciona. Copiar para evoluir, evoluir para fazer mais cópias...
Há sim um jogo de imagens, tentando me enganar, ludibriar meus olhos...
Mas eu que não sou boba nem nada, vejo o idem, o igual... Tudo espalhado e camuflado por aí.
E me desculpe se estou sendo repetitiva.
Estou ou não estou inserida na cultura?
Faço ou não faço parte deste rebanho?
Já reparou como estamos nos tornando cada vez mais iguais?
As mesmas roupas, as mesmas comidas, as mesmas músicas, os mesmos cortes de cabelo...
Cultura de massa faz isso com a gente... Cada vez mais sozinhos, cade vez mais iguais para sermos aceitos. (Apesar de nossas diferenças, e isso é o mais louco desta história toda!)
Mais consumo, mais consumo, mais consumo.
Bem... Vou por aí procurar minha subjetividade, que deve estar perdida em uma esquina qualquer.
Tchau, mundo replay!
Adeus!
Quero o divórcio.
Fale com o meu advogado.
Sem mais.
Sem mais.
Sem mais.

Camilla Borges

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Do meu jeito II

Homenagem ao melhor namorado do mundo. O que está comigo em todos os momentos. O que me faz feliz... Pra você, Tiago Marins.

O que eu peço pra você, são teus olhos em mim pra sempre.
Continue a me olhar desse jeito seu, com todo esse desejo saltando para fora feito labareda, esse orgulho não sei de que, e esse carinho no fundo dos olhos.
No seu olhar eu vejo nós dois.

Siga comigo por todos os caminhos e continue a me guiar... Afinal, sem você eu me perco de mim.
Avance todos os sinais vermelhos e venha cheio de dedos e mãos e língua, porque eu vou estar aqui, onde sempre estive. Como sempre estive... Cheia de corpo, carne e boca para te envolver inteiro e te preencher de tudo que há em mim.

Não me perca de vista, pois há na minha solidão um grande perigo. Não me livre dos teus cuidados, dos teus afagos, dos teus beijos... Esses beijos que só nós dois sabemos dar. Só nós dois podemos dar.

Toque para mim a mais bela canção. Deixe-me entrar no seu tom. Abra a porta e me dê boas vindas, pois da tua história eu não saio mais.
Continue tonto, continue calmo, pois vou permanecer como um sussurro eterno em teu ouvido.

Sou agradecida por ter sido um furacão que passou em tua vida e te arrastou. E não duvide de que serei ventania e mar revolto. Nestes momentos, me tome nos braços e me embale... Me deixe ficar aí, contigo, no teu peito, pois uma hora qualquer a calma acaba por vir.

Me beba, como um vinho doce que escorre por tua garganta. Sinta o gosto bom da paixão.
Tome a sua dose do meu desejo, da minha loucura. Voe comigo...
Embriague-se de mim.

Perca o sono. Acorde suado, sobressaltado, assustado.
E quando eu for a tua insônia não insista em manter os olhos fechados, porque quando você olhar para o lado irá me encontrar, princesa sua, e então você poderá se aliviar e me abraçar.
Te acolherei em meu seio.
Te protegerei do escuro da noite e serei teu Sol na madrugada.

Permita-me morar na tua memória, ficar nos teus pensamentos ao longo dos seus dias, tirando a sua concentração, te mantendo ocupado com nossas lembranças boas, ameaçando a tua paz... Eu sou um devaneio teu.

Abra teus ouvidos para a minha risada. Faça isso e faça isso agora, pois a culpa por cada sorriso meu é disto que chamamos de amor.
E em cada lugar que sentir meu cheiro, se demore um pouco mais... Inspire bem profundo...
E cheire.

Nunca deixe de ser a poesia que enfeita a minha vida...
Lembre-se: Comigo, sempre haverá um sonho bom...
No mais, deixe que eu seja sua, que eu seja louca, que eu seja luz...
Traga para mim o possível, que o impossível eu darei pra você.
Viva comigo seus anos, seus, dias, suas horas, seus minutos...
E envelheça comigo.

Não é um pedido. É do meu jeito.
Porque eu te amo.

Milla Borges



terça-feira, 29 de março de 2011

Amélie

Hoje, postarei um texto que amo muito e tenho um carinho e cuidade de mãe. Este texto, postei pela primeira vez , em meu outro blog Alienatio Mentis, em 24 de Maio de 2010)

Amélie é menina doce no auge da doçura e da meninice.
Tem uns sete anos e eu a inventei, para que me ensine a permanecer criança.
Mora em mim. Em tem a mim por ser também parte minha.
Essa menina é fragmento das minhas memórias, e de lembranças que eu inventei e guardo na minha caixinha de segredos.
Invento tanto que não defino o que de fato houve. O que de fato foi. Mas se é fato, houve.
Porque aprendi que contra fatos, não há argumentos, embora tudo não passe de invencionice e fantasia.
Talvez ela represente a instabilidade daquilo que chamamos de ser humano.
A menininha é esperta. Ela conhece os sentimentos...
É choro e sorriso. Pirraça e bondade.
É tão mandona e decidida... Tem personalidade forte! E possui aquele ar de quem está sempre na iminência de cometer uma travessura! E é até independente, eu diria... Mas ao mesmo tempo é tão frágil, tão miúda e tão desprotegida... (Que minha vontade é abraçar a sua essência, e quando ela chora e as suas lágrimas rolam, é pela minha face que elas escorrem...)
Eu a protejo. Eu a livro do adestramento da norma racionalista, imposta por esses adultos (nós adultos? Não. Eu não me encaixo. Sou peça sem par).
Eu ensino a ela que legume é ruim. Bom mesmo é bala e chocolate!
E quando quero agradá-la, lhe dou palavras de presente!
Confundo a minha vontade de amá-la. Não sei do que é feito esse amor...
Às vezes sou sua mãe, às vezes sua irmã ou filha e sempre somos amigas...
Eu me envolvo no seu sonho, e brinco de boneca por horas a ponto de não saber quem somos.
Ah! Como é bom não existir e simplesmente não ser!
Também não sei precisar onde eu começo e onde Amélie termina.
Talvez porque o tempo seja apenas uma forma de quantificar a transformação das coisas...
Dia e noite somos uma. Somos só nós duas.
Tem horas que me canso e quero que ela durma:
- Vá dormir Amélie! Fique quietinha agora, sim?! Quer ouvir uma história de princesa?
Mas, ela chama por mim a noite e eu me deito ao seu lado.
E me sinto num sonho. Num sonho cor de rosa.
Sonho de menina com algodão doce!
(Amélie pensa que as nuvens são feitas de algodão doce! Ora, essa é muito boa!)
Ela é o meu carinho, devo confessar... E ajuda a curar a minha carência eterna de afeto.
Desde menina eu brigo com essa carga de afeto que atravessa a vida.
É que meu corpo foi feito para o abraço... Deve ser por isso.
Talvez seja...
Amélie me desafia com essa mania que criança tem de querer saber de tudo. E me obriga a pensar.
A questionar o mundo e a mim mesma.
Ela me pergunta coisas como “Se um dia a gente morre, por que a gente vive?” “Os peixes pensam?” “Quem inventou o tempo?” “Deus tem pai?” “E mãe?”

(...)

Bem... As respostas eu invento, até porque, para Amélie, valem mais as boas palavras e as histórias que encantam a qualquer verdade concreta, seja ela absoluta ou não.
Mas isso não faz diferença. Criança não mente. Criança cria.
Amélie é uma subjetividade que ainda não se produziu... (Eu a crio e ela me inventa).
Ela é uma intensidade. Uma coisa.
É totalmente desprovida de qualquer moralidade humana.
Amélie é a minha fuga do caráter superficial deste realismo que nos norteia.
Essa menina é um fiapinho de alegria!
É impulso! Um sopro! Um salto!
Bolinha de sabão!
E quando nós estamos juntas, passo a acreditar que as coisas não precedem de nada, nem possuem razão de ser e assim sendo, por assim dizer, as coisas não tem para onde ir... E inventar caminhos e causas tornou-se nossa brincadeira favorita!
E quando ela adormece, me sinto vazia.
Pois se ela silencia me falta um pedaço...
E eu tenho sono. Tomo-me de cansaço...
É quase uma solidão, pois eu não durmo.

Mas, eu chamo por ela a noite, e ela se deita ao meu lado...
E me sinto num sonho. Num sonho cor de rosa.

Milla Borges

sexta-feira, 11 de março de 2011

Metáfora

Pertence às flores o cheiro que lhes cabe,
Característico aroma do florescer.
Em meu jardim, apenas há o que se sabe
Sobre as cores das quais necessito saber.
No céu, do azul retiro água
Que se faz chuva e derrama-se em choro
Lavando, vai. Levando embora a mágoa.
O que sobra, o vento assopra...
Desdobram-se pétalas rosas,
Aos versos cantados em coro.
Colho fruto maduro do pé
Recolho verdes fortes galhos,
Pela grama respingada de orvalho
Tudo parece (natural) quanto é.
Botões vermelhos, insetos, passarinhos
Sob o dourado do Sol, feito tocha,
O que resplandece é o que desabrocha
Dourados, avermelhados, poéticos espinhos...
Para plantar um sorriso sincero
Nesta face pálida de sal
Os corações que hoje dilacero
De coração, não levem a mal...
E cores, empresto às visitas
Borboletas bailando bonitas
Que vem enfeitar o meu jardim
Enchendo de pólen e encanto
Os ares desse recanto
E voam pra perto de mim.
Metáforas despencam do alto
Das árvores pendem verdades
São essas raízes que exalto,
E dão flores de felicidade.
Cultivo a vida, sem dela ter nada
Rego os dias (com tais poesias)
E magicamente da terra molhada,
Brota minha paz, de sementes vazias...

Milla Borges





sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

PLÁGIO.

Sonhadores,

Desta vez, não darei lugar aos sonhos, pois o que mostrarei para vocês me deixou um tanto triste.

Quando escrevo, escrevo com todo meu coração e minha alma. Passo por um processo de criação muitas vezes difícil, porém sempre prazeroso, pois escrever é para mim necessidade vital.
Fico tão feliz a cada seguidor que me prestigia com um comentário, com palavras que me fazem escrever mais e mais, que me inspiram e aguçam a minha imaginação e criatividade.
Alguns até linkam o meu blog ou postam textos meus nos seus próprios blogs e eu, me sinto honrada com tamanha demonstração de carinho e identificação.

Porém, uma menina postou um texto meu como se ela o tivesse escrito. O que me deixou extremamente triste e indignada. Como pode tamanha cara de pau?
Gostou do texto e quer postá-lo, ok. Mas, dê o crédito, não é mesmo?
Ela simplesmente postou o meu texto e assinou!


E este é o meu original, que escrevi para os meus sonhadores: http://millaborges.blogspot.com/2009/06/eu-vou-cuidar-de-voce.html

Lamentável...

Desejo sinceramente que essa menina retire meu texto do blog dela.

Sem mais.

Milla Borges



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cárcere



“…lamentar a fraqueza do espírito humano – esse frágil espectro incapaz de sobreviver sem a ilusão, sem o encantamento, sem esperanças impossíveis ou mentiras vitais.”

Dr. Irvin Yalom
(Trecho do livro Quando Nietzsche Chorou)


Simples são teus versos fortes, suas palavras vivas.
Suas mentiras, doces ilusões, que salpicam em mim suas gotas sujas, para que eu sempre me molhe de você.
Mergulho nos rios dos teus lábios e entrego-me sendo refém de sua lábia...
Teu seqüestro covarde não me ofende. Não crio resistência. Teu poder de fogo não me amedronta, mas me convence bem...
Tuas amarras são sempre uma ameaça. Minha liberdade em tuas mãos.
Meu corpo, esperando o teu corpo.
Sofro.
Prazer e desejo unem Eros e Pisque.
Algemada, me arrasto contigo ao teu cativeiro.
Ouço o tilintar de tuas correntes.
Teus versos secos. Tuas palavras tépidas.
Não luto. Permito. Solto um grito.
Um gemido.

(...)


Rendo-me, Carrasco!


Milla Borges

domingo, 30 de janeiro de 2011

Num jardim de begônias mal cuidadas



A sala era grande, porém mal iluminada. As velhas cortinas cheias de poeira cheiravam a coisa antiga. Coisa há muito tempo guardada. A casa inteira tinha cheiro de esquecimento.
O estofado velho do sofá rasgara-se com o tempo, e suas cores desbotadas eram tristes e sujas. Nas paredes, fotos de gente morta e na mesinha de centro, um velho cinzeiro vazio.
O teto abobadado, com algum esforço, tinha um tom artístico. Um acabamento fino de algum arquiteto do século passado.
Do lado de fora, estendia-se um jardim semimorto, com gramas queimadas pelo sol e algumas begônias mal cuidadas... No centro do jardim, havia um banco que um dia talvez tivesse sido branco, e neste banco descascado, uma figura no mínimo... Curiosa, lia o jornal calmamente. Lia, se balançando levemente para frente e para trás, como se estivesse embalando a si próprio. Sentado de lado, com as pernas cruzadas, o cachimbo no canto esquerdo da boca e um ar blasé estampado na face. Um senhor de aproximadamente setenta, setenta e cinco anos. Um senhor de cabelos brancos e bigodes de coronel. Um velho diabo que aprendeu a ser sozinho. Ou melhor... Optou por ser sozinho. E nessa solidão, havia felicidade.
Levantava-se muito cedo todos os dias de manhã. Muito cedo. Antes mesmo de o sol nascer.
Tomava um banho gelado para despertar e então se enfiava na cozinha para preparar o seu café. Fazia questão de ele próprio moer o café. E então, depois de pronto, o tomava quase fervendo.
Algumas vezes iniciava o dia caminhando pela vizinhança... Gostava de pensar nas pessoas dormindo, perdendo tempo, gastando parte de suas vidas dormindo... Achava que dormir era desperdício de vida, mas até gostava que fosse assim, pois o sossego dos lugares sem pessoas era para ele um presente divino. Não que este senhor fosse anti-social ou nutrisse algum tipo de fobia ou aversão às pessoas. Não mesmo... Ele só era estranho. Na verdade, só era particular. Autêntico. Vivia a seu modo. E isso bastava.
Outras vezes, começava o dia nos fundos da casa, numa garagem que ele havia transformado em marcenaria. Amava montar, criar, consertar coisas. Podia passar horas ou até mesmo o dia todo ali com seus tocos de madeira, suas tábuas e suas ferramentas. Tudo o agradava imensamente... As ferragens, o barulho do martelo, o poder da criação. Sentia-se Deus criando o mundo, nesses momentos. Dando formas, moldando, decidindo destinos... Sentia-se grande.
Ele tinha sim uns gostos peculiares, via o mundo de uma forma muito particular... Outra perspectiva acerca de tudo. De todos...
Lia muito e gostava de música francesa. Era um homem culto e teve uma história de vida um tanto morna. Não teve filhos, sempre morou naquela casa com a mulher. Trabalhou como contínuo num jornal chamado Última Hora, onde tirou o seu “ganha pão” a vida inteira... Se aposentou lá. Ficou viúvo, largou a bebida e desenvolveu um hábito novo: fumar cachimbo.
Sua esposa faleceu depois de uma luta exaustiva contra um câncer. Ele fez o que pode pela mulher. Ele a amava muito... Mas a maldita doença a levou para longe dele... Tão longe que com o passar dos anos, ele já quase não lembrava mais de seu rosto... O tempo tratou de ajudá-lo a superar suas dores e a esquecer o que de ruim aconteceu.
Não que sua esposa fosse uma lembrança ruim... Mas lembrar do seu rosto o levava a um estado de comoção profunda... Preferia lembrar-se de seus braços sempre acolhedores e de suas mãos finas e miúdas. Mas do rosto não...
Este senhor preenchia as suas tardes com leituras. Gostava de ler seu jornal no jardim, em meio as suas begônias. Lia também muitos clássicos da literatura nacional e estrangeira. Apesar da vida simplória, era muito inteligente. Sempre teve loucura pelo saber.
Tinha sede de conhecimento e muitas idéias modernas, apesar de seus questionamentos e conflitos serem tão antigos... Tão antigos.
Nestas tardes, algumas vezes, inspirado por algum livro, algum trecho, alguma poesia ou begônia, sentava-se na mesa da cozinha, olhava mansamente por certo tempo para a janela por onde o sol entrava e debruçava-se sobre folhas e mais folhas... E escrevia... Escrevia...
Como escrevia.
Suas poesias. Sua elegia. Suas rimas pobres, porém tão honestas...
Despedia-se das tardes ouvindo Charles Aznavour, religiosamente.
Nestes momentos, a casa enchia-se de nostálgica alegria. Às vezes, ele servia-se de chá, recostava confortavelmente, preguiçosamente no sofá, esticava suas pernas sobre a mesinha de centro, jogava sua cabeça para trás e ficava ali... Quietinho... Em puro devir... Imaginando coisas, criando histórias, revivendo na memória momentos que sequer eram reais. Pulsavam sonhos em sua cabeça, resvalavam na realidade morta e solitária daquele homem, sonhos. Puros e simples. Sonhos de um velho que se fez esquecer pelo mundo.
A noite nascia e ele saía de seus devaneios e dirigia-se direto para o chuveiro e demorava-se.
Como se limpasse de si todos aqueles pensamentos sujos, belos, falidos...
Preparava seu jantar.
Comia. Comia com calma.
Depois, fumava seu cachimbo para, segundo ele, fazer a digestão.
Ouvia no rádio as notícias do dia e depois, sentava-se ao piano para tocar suas canções favoritas.
Tocava até seus dedos doerem ou seus olhos pesarem de sono. Ou as duas coisas...
E então, deitava-se em sua cama dura e adormecia instantaneamente.
Era um senhor interessante. Sua desinteressante vida era rica em detalhes que a tornavam interessante e especial.
A solidão cultivada, o apreço pelas artes, a renúncia de uma vida social... E a felicidade do modo que ela cabe em si...
A felicidade simples... Do tamanho adequado.
A felicidade inalcançável, inatingível.
Possível.
A felicidade...
Essa tal felicidade ao alcance das mãos...
Num jardim de begônias mal cuidadas.

Milla Borges.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Meu íntimo

Em contato com a pele, areia. Para os olhos, horizonte.
Pensamentos perdidos...
Nem canto. Nem sereia
Desejos jogados ao vento.
No mar um barco a vela me leva, pra onde?
Palavras desperdiçadas nos tortuosos dias que seguem.
Para que se utilizar dos bons conselhos?
Eles me servem?
-Não afirmem, não neguem!
(E quem sabe?)
No mar, transparências, espelhos.
Desfaz-se meu barquinho de papel
(Há dor que se acabe...)
Braço forte, que venha a morte.
Lanço meu olhar ao céu
Não temo.
Às vezes dobro os joelhos
Nesse barco que me leva,
Eu remo.
Suplico a calma, fortaleço a fé
Avisto o farol.
Em mim, não chove, não neva.
Só venta, sem sol.
Leve, ponho-me de pé.
Renovo a alma.
E sigo...


Milla Borges