terça-feira, 29 de março de 2011

Amélie

Hoje, postarei um texto que amo muito e tenho um carinho e cuidade de mãe. Este texto, postei pela primeira vez , em meu outro blog Alienatio Mentis, em 24 de Maio de 2010)

Amélie é menina doce no auge da doçura e da meninice.
Tem uns sete anos e eu a inventei, para que me ensine a permanecer criança.
Mora em mim. Em tem a mim por ser também parte minha.
Essa menina é fragmento das minhas memórias, e de lembranças que eu inventei e guardo na minha caixinha de segredos.
Invento tanto que não defino o que de fato houve. O que de fato foi. Mas se é fato, houve.
Porque aprendi que contra fatos, não há argumentos, embora tudo não passe de invencionice e fantasia.
Talvez ela represente a instabilidade daquilo que chamamos de ser humano.
A menininha é esperta. Ela conhece os sentimentos...
É choro e sorriso. Pirraça e bondade.
É tão mandona e decidida... Tem personalidade forte! E possui aquele ar de quem está sempre na iminência de cometer uma travessura! E é até independente, eu diria... Mas ao mesmo tempo é tão frágil, tão miúda e tão desprotegida... (Que minha vontade é abraçar a sua essência, e quando ela chora e as suas lágrimas rolam, é pela minha face que elas escorrem...)
Eu a protejo. Eu a livro do adestramento da norma racionalista, imposta por esses adultos (nós adultos? Não. Eu não me encaixo. Sou peça sem par).
Eu ensino a ela que legume é ruim. Bom mesmo é bala e chocolate!
E quando quero agradá-la, lhe dou palavras de presente!
Confundo a minha vontade de amá-la. Não sei do que é feito esse amor...
Às vezes sou sua mãe, às vezes sua irmã ou filha e sempre somos amigas...
Eu me envolvo no seu sonho, e brinco de boneca por horas a ponto de não saber quem somos.
Ah! Como é bom não existir e simplesmente não ser!
Também não sei precisar onde eu começo e onde Amélie termina.
Talvez porque o tempo seja apenas uma forma de quantificar a transformação das coisas...
Dia e noite somos uma. Somos só nós duas.
Tem horas que me canso e quero que ela durma:
- Vá dormir Amélie! Fique quietinha agora, sim?! Quer ouvir uma história de princesa?
Mas, ela chama por mim a noite e eu me deito ao seu lado.
E me sinto num sonho. Num sonho cor de rosa.
Sonho de menina com algodão doce!
(Amélie pensa que as nuvens são feitas de algodão doce! Ora, essa é muito boa!)
Ela é o meu carinho, devo confessar... E ajuda a curar a minha carência eterna de afeto.
Desde menina eu brigo com essa carga de afeto que atravessa a vida.
É que meu corpo foi feito para o abraço... Deve ser por isso.
Talvez seja...
Amélie me desafia com essa mania que criança tem de querer saber de tudo. E me obriga a pensar.
A questionar o mundo e a mim mesma.
Ela me pergunta coisas como “Se um dia a gente morre, por que a gente vive?” “Os peixes pensam?” “Quem inventou o tempo?” “Deus tem pai?” “E mãe?”

(...)

Bem... As respostas eu invento, até porque, para Amélie, valem mais as boas palavras e as histórias que encantam a qualquer verdade concreta, seja ela absoluta ou não.
Mas isso não faz diferença. Criança não mente. Criança cria.
Amélie é uma subjetividade que ainda não se produziu... (Eu a crio e ela me inventa).
Ela é uma intensidade. Uma coisa.
É totalmente desprovida de qualquer moralidade humana.
Amélie é a minha fuga do caráter superficial deste realismo que nos norteia.
Essa menina é um fiapinho de alegria!
É impulso! Um sopro! Um salto!
Bolinha de sabão!
E quando nós estamos juntas, passo a acreditar que as coisas não precedem de nada, nem possuem razão de ser e assim sendo, por assim dizer, as coisas não tem para onde ir... E inventar caminhos e causas tornou-se nossa brincadeira favorita!
E quando ela adormece, me sinto vazia.
Pois se ela silencia me falta um pedaço...
E eu tenho sono. Tomo-me de cansaço...
É quase uma solidão, pois eu não durmo.

Mas, eu chamo por ela a noite, e ela se deita ao meu lado...
E me sinto num sonho. Num sonho cor de rosa.

Milla Borges

8 comentários:

  1. A sua Amélie é linda assim como seus sonhos...

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  2. Bonito texto.
    E belos sonhos!

    Beijo

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  3. Amélie é linda. Eu queria criar uma menininha tão linda e esperta quanto essa que criaste.
    Seria uma companheira de aventura, com a qual eu faria as maiores descobertas, as melhores poesias e bolaria as mais diversas filosofias.

    Seus textos são de uma poesia, de uma sensibilidade e intensidade lindas!

    P.s: tenho uma vergonha imensa de nunca ter lhe enviado um texto meu para ser postado nesse seu outro blog. É que não acho que meus textos humildes sejam dignos do seu canto, que é tão rico de poesia e significado. =/

    Beijo!

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  4. Mila,
    que bom que dentro de você tem espaço para a alegria de uma criança,não devemos deixa-la crescer,pois no momento certo ela ilumina nossa vida..
    Boas energias minha querida amiga,quando for à minha casa não fique no portão entre a casa e toda sua,tome um café quentinho!
    beijos,e obrigada pelo carinho!
    Mari

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  5. Li esse texto anteriormente e fiquei encantado... agora, lendo novamente, fiquei mais encantado ainda.
    Menina doce essa Amelie, e só é assim pq é um pedaço seu. É criada a partir dos seus sonhos e das suas fantasias. Criatura a imagem do criador.

    Muito bom o texto, assim como tantos outros... Vc sempre surpreendendo nos seus textos.

    Tenho muito orgulho de vc!

    Eu te amo!

    Beijos

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  6. Uii era mesmo isto que precisava , adoro vir aqui me deliciar com os teus posts.
    beijo

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