domingo, 30 de janeiro de 2011

Num jardim de begônias mal cuidadas



A sala era grande, porém mal iluminada. As velhas cortinas cheias de poeira cheiravam a coisa antiga. Coisa há muito tempo guardada. A casa inteira tinha cheiro de esquecimento.
O estofado velho do sofá rasgara-se com o tempo, e suas cores desbotadas eram tristes e sujas. Nas paredes, fotos de gente morta e na mesinha de centro, um velho cinzeiro vazio.
O teto abobadado, com algum esforço, tinha um tom artístico. Um acabamento fino de algum arquiteto do século passado.
Do lado de fora, estendia-se um jardim semimorto, com gramas queimadas pelo sol e algumas begônias mal cuidadas... No centro do jardim, havia um banco que um dia talvez tivesse sido branco, e neste banco descascado, uma figura no mínimo... Curiosa, lia o jornal calmamente. Lia, se balançando levemente para frente e para trás, como se estivesse embalando a si próprio. Sentado de lado, com as pernas cruzadas, o cachimbo no canto esquerdo da boca e um ar blasé estampado na face. Um senhor de aproximadamente setenta, setenta e cinco anos. Um senhor de cabelos brancos e bigodes de coronel. Um velho diabo que aprendeu a ser sozinho. Ou melhor... Optou por ser sozinho. E nessa solidão, havia felicidade.
Levantava-se muito cedo todos os dias de manhã. Muito cedo. Antes mesmo de o sol nascer.
Tomava um banho gelado para despertar e então se enfiava na cozinha para preparar o seu café. Fazia questão de ele próprio moer o café. E então, depois de pronto, o tomava quase fervendo.
Algumas vezes iniciava o dia caminhando pela vizinhança... Gostava de pensar nas pessoas dormindo, perdendo tempo, gastando parte de suas vidas dormindo... Achava que dormir era desperdício de vida, mas até gostava que fosse assim, pois o sossego dos lugares sem pessoas era para ele um presente divino. Não que este senhor fosse anti-social ou nutrisse algum tipo de fobia ou aversão às pessoas. Não mesmo... Ele só era estranho. Na verdade, só era particular. Autêntico. Vivia a seu modo. E isso bastava.
Outras vezes, começava o dia nos fundos da casa, numa garagem que ele havia transformado em marcenaria. Amava montar, criar, consertar coisas. Podia passar horas ou até mesmo o dia todo ali com seus tocos de madeira, suas tábuas e suas ferramentas. Tudo o agradava imensamente... As ferragens, o barulho do martelo, o poder da criação. Sentia-se Deus criando o mundo, nesses momentos. Dando formas, moldando, decidindo destinos... Sentia-se grande.
Ele tinha sim uns gostos peculiares, via o mundo de uma forma muito particular... Outra perspectiva acerca de tudo. De todos...
Lia muito e gostava de música francesa. Era um homem culto e teve uma história de vida um tanto morna. Não teve filhos, sempre morou naquela casa com a mulher. Trabalhou como contínuo num jornal chamado Última Hora, onde tirou o seu “ganha pão” a vida inteira... Se aposentou lá. Ficou viúvo, largou a bebida e desenvolveu um hábito novo: fumar cachimbo.
Sua esposa faleceu depois de uma luta exaustiva contra um câncer. Ele fez o que pode pela mulher. Ele a amava muito... Mas a maldita doença a levou para longe dele... Tão longe que com o passar dos anos, ele já quase não lembrava mais de seu rosto... O tempo tratou de ajudá-lo a superar suas dores e a esquecer o que de ruim aconteceu.
Não que sua esposa fosse uma lembrança ruim... Mas lembrar do seu rosto o levava a um estado de comoção profunda... Preferia lembrar-se de seus braços sempre acolhedores e de suas mãos finas e miúdas. Mas do rosto não...
Este senhor preenchia as suas tardes com leituras. Gostava de ler seu jornal no jardim, em meio as suas begônias. Lia também muitos clássicos da literatura nacional e estrangeira. Apesar da vida simplória, era muito inteligente. Sempre teve loucura pelo saber.
Tinha sede de conhecimento e muitas idéias modernas, apesar de seus questionamentos e conflitos serem tão antigos... Tão antigos.
Nestas tardes, algumas vezes, inspirado por algum livro, algum trecho, alguma poesia ou begônia, sentava-se na mesa da cozinha, olhava mansamente por certo tempo para a janela por onde o sol entrava e debruçava-se sobre folhas e mais folhas... E escrevia... Escrevia...
Como escrevia.
Suas poesias. Sua elegia. Suas rimas pobres, porém tão honestas...
Despedia-se das tardes ouvindo Charles Aznavour, religiosamente.
Nestes momentos, a casa enchia-se de nostálgica alegria. Às vezes, ele servia-se de chá, recostava confortavelmente, preguiçosamente no sofá, esticava suas pernas sobre a mesinha de centro, jogava sua cabeça para trás e ficava ali... Quietinho... Em puro devir... Imaginando coisas, criando histórias, revivendo na memória momentos que sequer eram reais. Pulsavam sonhos em sua cabeça, resvalavam na realidade morta e solitária daquele homem, sonhos. Puros e simples. Sonhos de um velho que se fez esquecer pelo mundo.
A noite nascia e ele saía de seus devaneios e dirigia-se direto para o chuveiro e demorava-se.
Como se limpasse de si todos aqueles pensamentos sujos, belos, falidos...
Preparava seu jantar.
Comia. Comia com calma.
Depois, fumava seu cachimbo para, segundo ele, fazer a digestão.
Ouvia no rádio as notícias do dia e depois, sentava-se ao piano para tocar suas canções favoritas.
Tocava até seus dedos doerem ou seus olhos pesarem de sono. Ou as duas coisas...
E então, deitava-se em sua cama dura e adormecia instantaneamente.
Era um senhor interessante. Sua desinteressante vida era rica em detalhes que a tornavam interessante e especial.
A solidão cultivada, o apreço pelas artes, a renúncia de uma vida social... E a felicidade do modo que ela cabe em si...
A felicidade simples... Do tamanho adequado.
A felicidade inalcançável, inatingível.
Possível.
A felicidade...
Essa tal felicidade ao alcance das mãos...
Num jardim de begônias mal cuidadas.

Milla Borges.