domingo, 25 de setembro de 2011

Muito além das palavras pequenas que tenho...



- ...
- Você gosta de que?
- Gosto de palavras.
- Que tipo de palavras?
- Todos os tipos, menos as que doem.
- Hum...
-Você é uma palavra...
-E você gosta?
-Gosto sim...
-Eu gosto de você. E isso é uma afirmação. Não tem um “acho” na frente.
-É porque eu também sou uma palavra...
-Pode ser...
-Quer algumas palavras de presente? Posso te dar.
-Não sei... Tenho um pouco de receio. Não lido muito bem com as palavras...
-Mas as minhas são um pouco mágicas. É que saem de dentro, sabe. Não surgem na boca ou nos dedos... Surge do ventre, da barriga... Ou daqui ó. Do peito...
- É? Você me doaria algumas, então?
-Sim... Mas antes, você precisa me dizer uma palavra também.
-Ué, você não disse que me daria palavras? Porque está me pedindo uma agora? Já te disse que não me dou muito bem com elas...
- Me diz uma. Uma que saia da boca mesmo. Junte os lábios, force a língua. Alguma palavra vai sair. Sem a sua palavra, não tenho como fabricar as minhas...
- ...
- Mas tem uma coisa... As minhas palavras, enquanto estiverem saindo de mim, continuam sendo minhas... Só passam a ser suas quando eu terminar e estiver vazia. E aí, faça delas o que quiser. Se servir, as utilize. Caso não sirva, deixe que o vento as leve. Entendeu?
- Entendi...
- Me dá uma palavra agora!
- Amor. Só isso pode ter em mim e só isso posso te dar. E te dou a palavra amor...
- Amor... Sei que minhas palavras são poucas, mas o que me move ao ganhar essa palavra é um impulso livre. Um vento bom...  E as minhas palavras são tão pouquinhas e insuficientes para doar amor... Mas uma coisa eu te digo, tudo que te dou a partir do amor, sai do coração. Não existe simplesmente porque existe. Existe porque precisa viver, precisa ser sentido. Vai além, muito além das palavras pequenas que tenho... É a semente que por amor recebe água. Que por amor à água, resolve brotar. E por brotar ama mais e floresce. Amor floresce. Amor é flor. E por amor à flor, surgem mais sementes. É tudo aquilo que também por ser muito até dói. Mas o que fazer da dor se não se sente nada além que uma vontade imensa de amar... Não sei ao certo quanto tempo o amor morou em mim, mas ele está aqui agora... Não é tão leve, nem tão claro como a água nem tão bonito quanto à flor. Mas é real, é honesto, é luz, insistindo em iluminar o breu do meu coração. Amor não é feito pra entender, não é feito pra definir, não é feito pra se achar. É feito pra confundir, pra se perder, pra criar sorrisos...
Não sei ao certo quanto tempo o amor morou em mim, mas ele está aqui agora.
Mais do que todas essas palavras, pegue pra você o que há entre elas, por dentro delas... Seu peso, sua textura, sua consistência... Sua essência. Esqueça os significados, esqueça os conceitos e só queira sentir... Por que, posso não saber por quanto tempo ainda o amor permanecerá, mas ele está aqui agora...
- ...
- Que?
- Nada.
- Ai ai...
- Senti. Senti o seu amor...
- E...
- Não sei usar as palavras, mas estou sentindo. Estou cheio de tudo que disse. De cada palavra que me deu. E que agora são minhas.
- ...
-Que foi?
-Nada.
-Nada não... Cadê seu brilho?
-Está aqui em algum lugar... É que agora estou vazia.
-Vai passar...
-Eu sei que vai.
-E, sabe... Você não está assim tão vazia... Sobrou o amor. Eu o sinto aqui...
-É. Ele está aqui agora... Que se demore...

Milla Borges