quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Vida sem saída


Lembrou-se de uma frase que haviam lhe dito há poucos dias: “Alguém precisa cuidar de você, menina.” 
Ficou ali, jogada no sofá, abraçada aos seus joelhos, bem quietinha só pensando no peso daquelas palavras. Nunca na vida, nenhuma frase disparada assim ao acaso a havia fragilizado tanto a ponto de fazer brotar uma angústia latente no seu coraçãozinho... Desde aquele dia, começou a perceber nela própria uma carência escondida, disfarçada muitas vezes em ironias. Carência que a levava inclusive a deslizar o lápis no papel até florescer poesias... Começou a entender então toda a sua necessidade de poetizar a vida... Era apenas uma maneira de não se sentir tão só. (Só? Não... Ela não se sentia assim. Ou sentia?) E escrever, lhe dava segurança, lhe dava certo poder, uma sensação boa de ter em suas mãos literais o domínio do mundo, dos destinos, daquela gente criada por si, tão ela e nada ela. Essa coisa de poetizar a vida para ser a dona das palavras e das histórias e dos universos e das entonações e deste modo, criar as suas verdades.
De fato, precisava criar um personagem para cuidar dela própria. Não havia em seus escritos ninguém tão real, ninguém tão fictício e instigante que a pudesse levar para dentro dos versos... Um personagem tão vivo, capaz de fazê-la viajar de mãos dadas com todas as suas invencionices, que a fizesse deixar de ser a dona do conto para ser mera personagem de si mesma.
Então, ela inventou de inventar um tal de personagens/escrito oculto... Fazia de conta que ele escrevia sua história, escrevia para ela. Mas era sempre ela ali... Sempre seus desejos e suas vontades, suas lutas, suas dores...  Embora muitas vezes ela sentisse que esse alguém que de tão inventado parecia ser real, estivesse bem ali nas suas entrelinhas... Ou na sua frente. Ou por dentro.
E a angústia vinha avassaladora naquele peito pequeno... E a frase se repetia... Ecoava na memória feito grito reprimido: “Alguém precisa cuidar de você, menina”.
Que nada! Sempre se virou muito bem apenas com seus cuidados. Sabia se cuidar. Sabia que (aquela angústia), sabia que (aquele alguém que nunca vinha), sabia que (aquele abraço), sabia que (aquele ombro onde pudesse encostar a cabeça), sabia que (ser frágil nem era tão ruim assim) sabia que (precisava de alguém que precisasse cuidar dela...).
Abraçada aos seus joelhos, com a respiração em descompasso, uma lagrima até ameaçou um desfile por sua face, mas ela não permitiu. A angústia permanecia... Pensou em seus personagens tão vazios de vida real, apesar de tão vivos...
Pensou em não pensar. Pensou em nunca mais escrever, ou escrever pra sempre uma história que não findasse nunca...
Pensou em inventar uma nova vida, um outro alguém, um novo ou velho amor, para que cuidasse dela... Pensou em se descuidar um pouquinho e se deixar viver.
Era isso. Ia se deixar viver...
Ia olhar o mundo real de forma real, sem pontos ou pausas. Ia viver.
Conseguiria ela abandonar o personagem/escritor? Duvido... Ele de certo modo, de uma maneira bem escondida cuidava dela... Ela escreveria sim pelas mãos de suas crias... Porém relataria agora o que a vida lhe permitisse. Uma hora ou outra certamente, ela irá inventar uma coisinha aqui e ali. Mas estava determinada a viver de verdade. Tão de verdade.
A angústia não cessou... Essa noite ela passaria abraçada ainda aos seus joelhos, planejando a vida, ou um modo de existência singular. Algo próprio que fosso só seu.
Viver, porque era a solução. Viver para ser cuidada e entendida. Para continuar poetizando. Viver porque não tinha jeito. (A realidade contraria. A contradição das coisas impulsiona o pensamento. Os sonhos apenas enfeitam a realidade, produzem esperanças...)
Viver. Simplesmente. Escrever. Simplesmente. Tudo bem simples mesmo...
Viver para fazer valer o direito de ter nascido.
Escrever para ser parte integrante, personagem dessa vida sem saída.
É... “Alguém precisa cuidar de você, menina.”

Milla Borges



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sementes


Eu sinto dó daqueles que se acham maduros demais e não se permitem uma travessura de vez em quando.
Sinto também por aqueles que se acham inteligentes demais e não se permitem arriscar e quem sabe, aprender com um erro ou outro.
Sinto tanto por todos aqueles, sérios e carrancudos, que não retribuem um sorriso, nem correspondem a um olhar afável.
Sinto pena daqueles que se acham suficientemente bons para não precisar de ninguém.
Eu sinto por quem sente inveja de quem ri, de quem é autêntico, de quem ousa, de quem não tem medo de chorar...
Tenho dó de quem não sabe perdoar, de quem coleciona desafetos, de quem tem uma lista considerável de “pessoas que eu ignoro ou não falo”.
Lamento por todos que não conseguem passar bem sem fazer uma fofoca ou uma intriga, esquecendo-se que uma palavra basta para destruir uma pessoa.
Sinto muito pelos amargos, tristes, frustrados e infelizes... Por aqueles que se entristecem com a felicidade alheia.
E a cada dia que passa, admiro mais e mais aqueles que se aproximam do que eu chamo de humano.
Aqueles que erram, que se arriscam, que sorriem, que praticam o bem, e que apesar das limitações estão sempre tentando ser alguém melhor...
Aqueles que vivem sem medo, se esforçam para ajudar o próximo, que demonstram carinho e que apesar de todos os pesares dessa vida, insiste num caminho de amor, bondade e justiça...
A estes, todo meu respeito e admiração.
Sei que ninguém é perfeito, sei que somos múltiplos em todos os sentidos, temos dias bons e dias ruins, e aí talvez esteja todo encanto do ser... Mas acredito que, colhemos exatamente aquilo que plantamos. Recebemos aquilo que doamos.
E é por isso, que quanto mais a vida me ensina, mais apreço eu tenho pelas boas sementes...

 Milla Borges

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Peito rasgado, verbo solto, boca molhada de beijo.


“... Rasguei o peito.
Rasquei mesmo...
Eu hein...
E soltei o verbo também.
Eu precisava falar, liberar tudo isso que estava aqui atravessado na garganta.
Eu precisava muito me fazer esse favor, porque todas essas indefinições estavam me tirando o sono, eu estava meio paranóica, sabe... Tudo era um salto, tudo um pulo, tudo um susto.
E eu não sou de viver assim não... Prezo muito minha tranqüilidade, minha paz de espírito... E também não sou chegada a “mimimi”.
Disse, disse. Fez, Fez. Quer, quer. Não quer, dane-se!
Então, eu fui lá... Fui lá em busca da verdade... Porque eu também não tenho medo de dor nenhuma não. Quer dizer, ninguém gosta de doer, né... Mas se precisar eu sofro mesmo. E dane-se! Dane-se de novo! Me acabo de chorar. Choro até desidratar, até não ter mais lágrimas pra cair. Sofro dois, três dias...  (Às vezes, até mais... Depende da dor, né...) Mas depois passa... Passa ué. Puff! Some. Um dia eu acordo, e “cadê aquela tristezinha que estava aqui? O gato comeu!”
Me enchi de coragem e fui lá rasgar meu peito, abrir o coração, me dar essa chance de saber... De saber de mim, de saber o que fazer de mim e de tudo isso que eu sinto.
Cheguei lá, cheia de atitude... Ele me olhou assim, meio de canto, meio de lado, um pouco assustado... Não esperava...
Olhei bem na cara dele, no fundo dos olhos.
Aí eu disse: “Olha aqui, rapaz. É o seguinte... Eu tenho em mim, bem aqui ó, um milhão de sentimentos bonitos que são todos seus. Tenho aqui ó, um milhão de planos e idéias que, numa boa, só farão sentido se for com você. Não que eu não possa me desfazer de tudo isso se essa não for a sua vibe. Eu até posso. E até consigo. Mas é que eu não quero. Não quero abrir mão de nada que tenha a sua presença, a sua lembrança, a sua memória, o seu cheiro... Enfim... Sabe de uma coisa? Eu vim aqui pra saber qual é a tua. Porque, na boa, na boa mesmo...”
E nesse momento, ele me calou com um beijo...”

 
Milla Borges

 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Para (re)criar um novo (e velho) eu


Quero (re)montar a minha vida...
Não pelos erros todos que cometi no passado, não é isso. Também não é por qualquer insatisfação que eu poderia estar sentindo, nem por achar que há algo de errado comigo (embora muitas vezes eu ache mesmo que há algo de errado comigo. E com o mundo também).
Não, não é por isso.
É que há tempos eu me perdi de mim, e há tempos eu tento me (re)encontrar...
Em algum momento da minha trajetória, desfiz um laço precioso e bonito, aquele que me conectava com todos os meus eus, com tudo que há em mim, o que tem aqui dentro, o que esteve escondido e pouco a pouco foi se revelando. E eu sinto falta daquilo que havia na mais fina camada da alma.
Não que eu esteja envolta em uma espessa crosta de nostalgia, embora, às vezes, vivê-la me leva a lugares que me acolhem.
O que eu quero é tão simples... Eu quero (re)escrever a minha história, (re)encontrar pessoas esquecidas, eu quero (re)viver sentimentos perdidos... (Porém tão vivos, que nunca se fizeram esquecer...)
Quero aquele sorriso, o mais sincero de todos, aquele que eu tinha...
Quero aqueles chiliques, aquelas coisas bem de mulherzinha e todos os meus rompantes emocionais de volta...
Quero (re)nascer de mim mesma para aquilo que no fundo, no fundo, nunca esteve morto...
(Re)Ativar a força que eu guardei, (re)lembrar tudo que fui e SER apenas quem eu sei ser.
Não dá pra se lamentar das coisas vividas nem se culpar por cada passo dado, ou decisão tomada... O que dá para fazer é seguir... Seguir a voz que chama, o abraço que atrai, o caminho que se tem pela frente, seguir o que manda o coração... Esse sim é o grande dono da verdade.
Vou (re)contar as horas que tenho para fazer um tempo novo e (re)fazer brotar o amor...
É isso...
(Re)Tomar nas mãos a minha vida, e fazer dela a coisa mais bonita de se estar.
Ser feliz, ou pelo menos tentar...
Para (re)criar um novo (e velho) eu.

Milla Borges

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Em mim...


Supera-se a palavra dita no sussurro, trazida pelo vento.
Sente-se muito mais as palavras escondidas nos desejos do silêncio.
Passa o sentimento pelo corpo, me atravessa... Eu suspiro, mas não quero.
Dispenso o que se safa do suplício, do deserto, e não impeço...
A passagem do não-dito, se refaz em algum verso quase incerto.
E no seio, o que se passa e o que fica... Esse meu vazio eterno.
Sensações,
Emoções,
Ficções.
Que não me venha se for pouco. Eu peço.
Que eu não quero nada além do que mereço.
Que do veneno eu desconheço e já o temo.
Que não há nada mais triste que amor pequeno...

 
Milla Borges

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sentia muito, sentia sempre. Pegou mania.


Pegou a mania de sentir cheiros.
Nada a fascinava mais naqueles dias senão os cheiros da vida, e olha... A vida produzia muitos cheiros diferentes.
Os aromas se misturavam às palavras, às pessoas, aos objetos, aos sentimentos, ao que os olhos viam e o coração escondia.
Pela manhã cheirava sol e se por caso chovia, a terra molhada lhe trazia boas lembranças de um tempo que ainda não tinha acontecido.
Não existia fragrância mais agradável às suas narinas que o cheiro da infância e das suas memórias. Em um passado tão presente e vivo que corria até o risco de ter sido invencionice da sua cabeça, já que nada a levava tão além da realidade que a nostalgia de reviver as antiguidades da sua trajetória.
Se num jardim o aroma era de flores, logo reavivava seus mortos e morria também, só que de saudade... E o cheiro da saudade era aquele cheirinho gostoso do abraço com a cara enfiada no pescoço de quem um dia já esteve neste solo. E neste mesmo solo, germinavam novas flores e novos aromas lhe envolviam na atmosfera do seu mundo tão particular. Novos braços e abraços, novos ares...
Se tudo não fosse tão movimentado, gostaria de sentir o cheiro do silêncio só pra poder sufocar de tanto lembrar...
Inventava e se lembrava do bolo, do doce, da canção.
Exalava o que de puro havia em seu coração, mas desconhecia a intensidade do que sentia.
E ela sentia muito... O tempo todo, só queria sentir.
Cheirou a dor, o amor, a confusão e a esperança...
Derramou por toda parte seu perfume de alecrim... Não era justo esconder esse cheiro do mundo a sua volta. E logo após ter o perfume todo derramado, quebrou o frasco, estilhaçou o vidro e cortou as mãos.
O cheiro do sangue a assustou e então por um momento desejou que nada mais houvesse ao seu redor.
Sangue que escorre, assim como a vida que lhe escapa.
Sangue que coagula, assim como as palavras que cessam.
Sangue tão vermelho e bonito, que se pingasse no chão, uma lágrima teria que ser derramada para sacramentar aquele momento.
Mas, acontece que a lágrima não rolou...
O cheiro do sal não pode ser sentindo, e sentir era o que fazia seu coração bater.
E então, neste momento, a vida tornou-se insípida.
Não mais aromas, cheiros, fragrâncias...
Nada mais era trazido pelo vento.
E se no olfato não lhe passava a existência do mundo todo, como um todo... Abriu os olhos e descobriu a visão.
Arregalou-se, dilatou suas pupilas e pode perceber cores tão vivas que também a fazia sentir... E ela, sentia muito. Sentia sempre... Pegou mania.
Retomou todas aquelas memórias pela perspectiva de um outro sentido... E estava sendo feliz... Havia em seu olhar toda a extensão de uma vida interessante.
Desde este dia, pegou a mania de ver.

 
- Milla Borges -

 

 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mais um Agosto...


Sim, eu tenho pé atrás com Agosto.
Não pelo fato deste mês ser conhecido como o mês do desgosto. Não é isso que me deixa com a pulga atrás da orelha...
O que me traz essa sensação estranha com relação ao mês, é a sua calma...
Retomei na memória o meu histórico de Agostos, e vi que Agostos não possuem pressa... Pra começar, se seguisse a lógica, este mês deveria ter 30 dias... Mas não... Agosto faz questão de se demorar mais um diazinho na nossa vida... E como as semanas se arrastam em Agosto... Como as horas ficam preguiçosas e lentas neste mês...
Há uma outra coisa... Agosto me engana... Em geral, este mês começa com um dia lindo de sol, como se por 31 dias inteirinhos o mundo fosse claro, feliz, leve... Mas não demora muito, Agosto fica cinza, fica seco, fica tenso. As pessoas nas ruas parecem vestir essas características e logo os sorrisos se fecham, as sobrancelhas se franzem, as gentilezas gratuitas diminuem...
Agosto tem lá os seus mistérios, suas cismas, suas manias...
Estou disposta a quebrar esse gelo. Neste Agosto, sentirei o gosto de cada dia.
Se o tempo fechar, eu desenho um sol bem grande.
Se os sorrisos se esvaírem, insistirei numa boca larga e no bom humor. Apostarei sim, na felicidade.
Se o tempo quiser diminuir seu ritmo, o acompanharei lenta e decidida, rumo a mais um dia, mais 24 horas, mais tempo pro meu tempo que é tão escasso.
Como dizem por aí: Se não pode vencê-lo, junte-se a ele.
Vou de mãos dadas com este mês, até que desponte Setembro.
Hoje é dia primeiro de Agosto... Eu gosto de inícios...
Essa tal de esperança que se renova mesmo quando tudo segue igual...
Não gosto de Agosto, mas gasto a generosidade que eu tenho para aceitá-lo.

E aí, Agosto... Amigos?


Milla Borges

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Inversa

Eu não sei dizer se o tempo passou e eu me perdi, se ele avançou e eu não o vi passar, se caminhamos juntos, tão lado a lado que quase não conseguimos nos perceber.
Não sei o que houve de mim, não sei mesmo... Alguns sonhos estavam aqui agora mesmo, eu não me lembro muito bem que lugar em mim ocupavam, mas eu posso lembrar nitidamente desses sonhos tão lúcidos e possíveis, e agora? Onde? Cadê? Estavam aqui agora mesmo e não os tenho mais... Não sei o que foi que houve.
Às vezes tenho a sensação que não nasci... Que fui inventada por alguém e que cada coisinha da minha vida, cada coisinha que me acontece já está escrito nas folhas de alguém que me constrói dia após dia, como se eu fosse a sua obra, o seu relato, mas eu não sei se é exatamente assim que eu percebo a mim... Não sei se é exatamente assim.
O que foi que eu fiz com tudo o que eu vivi? Onde escondi todos aqueles erros, onde guardei aqueles cheiro e aquelas memórias? Será que eu perdi aquela gente toda, que era tão em mim e eu nelas, mas tão, tão amalgamados que se misturaram a minha matéria? Será? Será que é isso?
Não sei... Eu não entendo muito bem a finalidade desse amontoado de sentimentos, essas mudanças todas, esses passos todos dados, esse meu ritmo diferente que acelera e descansa e pausa e para. E depois volta. Mas isso não faz sentido. E eu só queria mesmo era entender isso tudo aí... Por quê? O por que de tantos por quês...
O problema todo é que eu me procuro e não me acho, sabe... E eu não sei em que momento ao certo eu me perdi de mim, e eu me chamo, eu me grito, mas não me respondo. Não me sei.
Não me sei nadinha.
E esse meu tamanho, que é estranho e me incomoda, porque eu não me encaixo no meu corpo, nem caibo em mim. Acho que alguma coisa deve ter dado errado, mas o que, meu Deus? O que foi que deu errado? O que?
É que fica assim esse vazio, sabe... Tenho certeza que tá faltando um pedaço. Eu não estou inteira. Falta alguma parte dessa construção tão complexa e estranha. Eu toco, eu sinto, eu vejo, mas falta... Eu não sei o que preencher. Eu não sei com que preencher...
Eu completo todo o cenário à minha volta, embora incompleta. Incerta, Indecisa, inquieta, avessa, invertida... Sei lá!
Sabe o que eu acho? Que eu acho que pode ser? Que pode nada disso ser de verdade. Nada disso existe. Eu que inventei tudinho, mas tudinho mesmo e tudo é branco. Não existe nada. Absolutamente nada. É só um grande branco infinito. Eu é que me fiz de besta e fui colorindo, colorindo, colorindo tudo do meu jeito... Por isso que é assim, tudo meio confuso, porque não sei muito dessas coisas de pintar...  Não entendo disso direito. E claro, sempre vai faltar alguma coisa... Por mais que eu jogue as cores, o branco é infinito... O branco sempre vai existir carregado dessa falta. E eu continuo sem me saber.
Pra sempre.
(in verso), inversa.

Acho que é melhor assim...


Milla Borges.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ensaio


Um pouco de nada, exageradamente desprovido de textura. É liso o que os olhos conseguem tocar, molhados e pequenos. Tudo no pouco é muito, por não ser nada.
Absolutamente nada. (E ser nada, em absoluto, é ser algo).
Quando eu me olhar no espelho, não reconhecerei nem um fiapo de cabelo.
Eu vou lançar um olhar vazio... Perdido... E talvez eu me encontre em algum lugar.
Talvez eu perceba que sou de vidro. E vidro quebra.
Vidro corta.
Talvez eu me veja no reflexo daquilo que não há reflexão...
Só pulsa.

Milla Borges