quinta-feira, 12 de julho de 2012

Inversa

Eu não sei dizer se o tempo passou e eu me perdi, se ele avançou e eu não o vi passar, se caminhamos juntos, tão lado a lado que quase não conseguimos nos perceber.
Não sei o que houve de mim, não sei mesmo... Alguns sonhos estavam aqui agora mesmo, eu não me lembro muito bem que lugar em mim ocupavam, mas eu posso lembrar nitidamente desses sonhos tão lúcidos e possíveis, e agora? Onde? Cadê? Estavam aqui agora mesmo e não os tenho mais... Não sei o que foi que houve.
Às vezes tenho a sensação que não nasci... Que fui inventada por alguém e que cada coisinha da minha vida, cada coisinha que me acontece já está escrito nas folhas de alguém que me constrói dia após dia, como se eu fosse a sua obra, o seu relato, mas eu não sei se é exatamente assim que eu percebo a mim... Não sei se é exatamente assim.
O que foi que eu fiz com tudo o que eu vivi? Onde escondi todos aqueles erros, onde guardei aqueles cheiro e aquelas memórias? Será que eu perdi aquela gente toda, que era tão em mim e eu nelas, mas tão, tão amalgamados que se misturaram a minha matéria? Será? Será que é isso?
Não sei... Eu não entendo muito bem a finalidade desse amontoado de sentimentos, essas mudanças todas, esses passos todos dados, esse meu ritmo diferente que acelera e descansa e pausa e para. E depois volta. Mas isso não faz sentido. E eu só queria mesmo era entender isso tudo aí... Por quê? O por que de tantos por quês...
O problema todo é que eu me procuro e não me acho, sabe... E eu não sei em que momento ao certo eu me perdi de mim, e eu me chamo, eu me grito, mas não me respondo. Não me sei.
Não me sei nadinha.
E esse meu tamanho, que é estranho e me incomoda, porque eu não me encaixo no meu corpo, nem caibo em mim. Acho que alguma coisa deve ter dado errado, mas o que, meu Deus? O que foi que deu errado? O que?
É que fica assim esse vazio, sabe... Tenho certeza que tá faltando um pedaço. Eu não estou inteira. Falta alguma parte dessa construção tão complexa e estranha. Eu toco, eu sinto, eu vejo, mas falta... Eu não sei o que preencher. Eu não sei com que preencher...
Eu completo todo o cenário à minha volta, embora incompleta. Incerta, Indecisa, inquieta, avessa, invertida... Sei lá!
Sabe o que eu acho? Que eu acho que pode ser? Que pode nada disso ser de verdade. Nada disso existe. Eu que inventei tudinho, mas tudinho mesmo e tudo é branco. Não existe nada. Absolutamente nada. É só um grande branco infinito. Eu é que me fiz de besta e fui colorindo, colorindo, colorindo tudo do meu jeito... Por isso que é assim, tudo meio confuso, porque não sei muito dessas coisas de pintar...  Não entendo disso direito. E claro, sempre vai faltar alguma coisa... Por mais que eu jogue as cores, o branco é infinito... O branco sempre vai existir carregado dessa falta. E eu continuo sem me saber.
Pra sempre.
(in verso), inversa.

Acho que é melhor assim...


Milla Borges.

2 comentários:

  1. Milla linda, saudades mesmo de ler tuas letras sempre tão profundas. Um jeito delicado pra dizer tudo que é bruto, forte e inquietante no coração. Amei o que li, vi e senti aqui.

    Beijos flor!!!

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