quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Em mim...


Supera-se a palavra dita no sussurro, trazida pelo vento.
Sente-se muito mais as palavras escondidas nos desejos do silêncio.
Passa o sentimento pelo corpo, me atravessa... Eu suspiro, mas não quero.
Dispenso o que se safa do suplício, do deserto, e não impeço...
A passagem do não-dito, se refaz em algum verso quase incerto.
E no seio, o que se passa e o que fica... Esse meu vazio eterno.
Sensações,
Emoções,
Ficções.
Que não me venha se for pouco. Eu peço.
Que eu não quero nada além do que mereço.
Que do veneno eu desconheço e já o temo.
Que não há nada mais triste que amor pequeno...

 
Milla Borges

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sentia muito, sentia sempre. Pegou mania.


Pegou a mania de sentir cheiros.
Nada a fascinava mais naqueles dias senão os cheiros da vida, e olha... A vida produzia muitos cheiros diferentes.
Os aromas se misturavam às palavras, às pessoas, aos objetos, aos sentimentos, ao que os olhos viam e o coração escondia.
Pela manhã cheirava sol e se por caso chovia, a terra molhada lhe trazia boas lembranças de um tempo que ainda não tinha acontecido.
Não existia fragrância mais agradável às suas narinas que o cheiro da infância e das suas memórias. Em um passado tão presente e vivo que corria até o risco de ter sido invencionice da sua cabeça, já que nada a levava tão além da realidade que a nostalgia de reviver as antiguidades da sua trajetória.
Se num jardim o aroma era de flores, logo reavivava seus mortos e morria também, só que de saudade... E o cheiro da saudade era aquele cheirinho gostoso do abraço com a cara enfiada no pescoço de quem um dia já esteve neste solo. E neste mesmo solo, germinavam novas flores e novos aromas lhe envolviam na atmosfera do seu mundo tão particular. Novos braços e abraços, novos ares...
Se tudo não fosse tão movimentado, gostaria de sentir o cheiro do silêncio só pra poder sufocar de tanto lembrar...
Inventava e se lembrava do bolo, do doce, da canção.
Exalava o que de puro havia em seu coração, mas desconhecia a intensidade do que sentia.
E ela sentia muito... O tempo todo, só queria sentir.
Cheirou a dor, o amor, a confusão e a esperança...
Derramou por toda parte seu perfume de alecrim... Não era justo esconder esse cheiro do mundo a sua volta. E logo após ter o perfume todo derramado, quebrou o frasco, estilhaçou o vidro e cortou as mãos.
O cheiro do sangue a assustou e então por um momento desejou que nada mais houvesse ao seu redor.
Sangue que escorre, assim como a vida que lhe escapa.
Sangue que coagula, assim como as palavras que cessam.
Sangue tão vermelho e bonito, que se pingasse no chão, uma lágrima teria que ser derramada para sacramentar aquele momento.
Mas, acontece que a lágrima não rolou...
O cheiro do sal não pode ser sentindo, e sentir era o que fazia seu coração bater.
E então, neste momento, a vida tornou-se insípida.
Não mais aromas, cheiros, fragrâncias...
Nada mais era trazido pelo vento.
E se no olfato não lhe passava a existência do mundo todo, como um todo... Abriu os olhos e descobriu a visão.
Arregalou-se, dilatou suas pupilas e pode perceber cores tão vivas que também a fazia sentir... E ela, sentia muito. Sentia sempre... Pegou mania.
Retomou todas aquelas memórias pela perspectiva de um outro sentido... E estava sendo feliz... Havia em seu olhar toda a extensão de uma vida interessante.
Desde este dia, pegou a mania de ver.

 
- Milla Borges -

 

 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mais um Agosto...


Sim, eu tenho pé atrás com Agosto.
Não pelo fato deste mês ser conhecido como o mês do desgosto. Não é isso que me deixa com a pulga atrás da orelha...
O que me traz essa sensação estranha com relação ao mês, é a sua calma...
Retomei na memória o meu histórico de Agostos, e vi que Agostos não possuem pressa... Pra começar, se seguisse a lógica, este mês deveria ter 30 dias... Mas não... Agosto faz questão de se demorar mais um diazinho na nossa vida... E como as semanas se arrastam em Agosto... Como as horas ficam preguiçosas e lentas neste mês...
Há uma outra coisa... Agosto me engana... Em geral, este mês começa com um dia lindo de sol, como se por 31 dias inteirinhos o mundo fosse claro, feliz, leve... Mas não demora muito, Agosto fica cinza, fica seco, fica tenso. As pessoas nas ruas parecem vestir essas características e logo os sorrisos se fecham, as sobrancelhas se franzem, as gentilezas gratuitas diminuem...
Agosto tem lá os seus mistérios, suas cismas, suas manias...
Estou disposta a quebrar esse gelo. Neste Agosto, sentirei o gosto de cada dia.
Se o tempo fechar, eu desenho um sol bem grande.
Se os sorrisos se esvaírem, insistirei numa boca larga e no bom humor. Apostarei sim, na felicidade.
Se o tempo quiser diminuir seu ritmo, o acompanharei lenta e decidida, rumo a mais um dia, mais 24 horas, mais tempo pro meu tempo que é tão escasso.
Como dizem por aí: Se não pode vencê-lo, junte-se a ele.
Vou de mãos dadas com este mês, até que desponte Setembro.
Hoje é dia primeiro de Agosto... Eu gosto de inícios...
Essa tal de esperança que se renova mesmo quando tudo segue igual...
Não gosto de Agosto, mas gasto a generosidade que eu tenho para aceitá-lo.

E aí, Agosto... Amigos?


Milla Borges