quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sentia muito, sentia sempre. Pegou mania.


Pegou a mania de sentir cheiros.
Nada a fascinava mais naqueles dias senão os cheiros da vida, e olha... A vida produzia muitos cheiros diferentes.
Os aromas se misturavam às palavras, às pessoas, aos objetos, aos sentimentos, ao que os olhos viam e o coração escondia.
Pela manhã cheirava sol e se por caso chovia, a terra molhada lhe trazia boas lembranças de um tempo que ainda não tinha acontecido.
Não existia fragrância mais agradável às suas narinas que o cheiro da infância e das suas memórias. Em um passado tão presente e vivo que corria até o risco de ter sido invencionice da sua cabeça, já que nada a levava tão além da realidade que a nostalgia de reviver as antiguidades da sua trajetória.
Se num jardim o aroma era de flores, logo reavivava seus mortos e morria também, só que de saudade... E o cheiro da saudade era aquele cheirinho gostoso do abraço com a cara enfiada no pescoço de quem um dia já esteve neste solo. E neste mesmo solo, germinavam novas flores e novos aromas lhe envolviam na atmosfera do seu mundo tão particular. Novos braços e abraços, novos ares...
Se tudo não fosse tão movimentado, gostaria de sentir o cheiro do silêncio só pra poder sufocar de tanto lembrar...
Inventava e se lembrava do bolo, do doce, da canção.
Exalava o que de puro havia em seu coração, mas desconhecia a intensidade do que sentia.
E ela sentia muito... O tempo todo, só queria sentir.
Cheirou a dor, o amor, a confusão e a esperança...
Derramou por toda parte seu perfume de alecrim... Não era justo esconder esse cheiro do mundo a sua volta. E logo após ter o perfume todo derramado, quebrou o frasco, estilhaçou o vidro e cortou as mãos.
O cheiro do sangue a assustou e então por um momento desejou que nada mais houvesse ao seu redor.
Sangue que escorre, assim como a vida que lhe escapa.
Sangue que coagula, assim como as palavras que cessam.
Sangue tão vermelho e bonito, que se pingasse no chão, uma lágrima teria que ser derramada para sacramentar aquele momento.
Mas, acontece que a lágrima não rolou...
O cheiro do sal não pode ser sentindo, e sentir era o que fazia seu coração bater.
E então, neste momento, a vida tornou-se insípida.
Não mais aromas, cheiros, fragrâncias...
Nada mais era trazido pelo vento.
E se no olfato não lhe passava a existência do mundo todo, como um todo... Abriu os olhos e descobriu a visão.
Arregalou-se, dilatou suas pupilas e pode perceber cores tão vivas que também a fazia sentir... E ela, sentia muito. Sentia sempre... Pegou mania.
Retomou todas aquelas memórias pela perspectiva de um outro sentido... E estava sendo feliz... Havia em seu olhar toda a extensão de uma vida interessante.
Desde este dia, pegou a mania de ver.

 
- Milla Borges -