terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Não sei


Aquela sensação de que algo está para acontecer. E não acontece. Ou acontece? Frio na barriga. Um súbito ataque de ansiedade, os pelos se arrepiam, é aquilo que faz a espinha tremer. Eu sinto frio. Eu sei que é o futuro mais uma vez invadindo o meu presente, tentando acelerar as coisas. Não posso. Não posso querer saber. Seria tão mais simples viver, apenas. Mas a demora dos dias que se arrastam. As horas que não chegam, e essa esperança... O que eu espero, afinal? Todas as coisas do mundo? Todos os lugares do planeta? Tragada pelo universo? Eu absorvo todo o oxigênio com medo de que me falte. Sou eu assim, solta no ar, perdida no tempo, procurando o meu espaço e essa tem sido uma exaustiva busca, uma briga ferrenha contra mim mesma. (Ou contra o mundo, ainda não descobri). Eu tento relativizar as coisas, mas nem tudo faz sentido. E eu nem sei se precisa fazer. Eu tenho pressa. Eu preciso chegar. Só não sei onde. Eu não sei tanta coisa...

Milla Borges

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sutilezas


A lágrima é tão vítima da noite quanto um sonho que é interrompido por um despertar sobressaltado. É na solidão noturna que a vida se faz notar por sua sensível maneira de tocar o coração.
As sutilezas que fazem brotar o choro.
A sensibilidade que justifica a lágrima.
O silêncio que justifica a noite...

Milla Borges


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Trajetória


Peço passagem, peço perdão, tropeço.
Pego implicância, exponho pessoas, me perco.
Parto em pedaços, pergunto se posso, (não posso), esqueço.
Passo a pergunta, publico a palavra, escrevo.
Permito o pecado, percebo o passado, arrependo.
Ponho em pauta, peso a resposta, acerto.
Penso nos pontos, acho o problema, nem ligo.
Pinto o futuro, te ponho em perigo, comigo.
Te levo pra sempre, proponho a partida, insisto.
Escondo o presente, deixo pra lá...
Desisto.

Milla Borges

domingo, 24 de novembro de 2013

Nunca é tarde


Eu já tive mais de mim para dizer.
Na verdade eu já fui uma garota muito mais interessante.
Hoje eu sou só uma mulher comum, com sonhos possíveis e distantes, alguns impossíveis e prováveis.
Tenho neuras absurdas fundamentadas em uma vida inteira de pensamentos exacerbados, possuo em mim abismos, precipícios, amenidades, serenidades, sorrisos, angustias e algumas alegrias.
Não há muito que dizer. Aquele brilho de outrora se apagou. Ou está se apagando lentamente.
Por muito tempo fiz um esforço gigante em preservar o vigor dos meus impulsos, em exaltar toda liberdade que sempre me aprisionou. Hoje não mais.
Toda aquela necessidade de permanecer na claridade e na altitude já se foi. Atualmente, eu gostaria de me esconder um pouquinho só para ficar mais comigo mesma. Para tentar conhecer esse novo eu, que sem me pedir permissão, se apodera de mim.
Contudo, posso até dizer que me sinto mais calma. Não menos angustiada com o mundo e o futuro, mas hoje eu sei que há em mim uma calma inexata e incompleta, que de vez em quando vem e me faz parar e respirar um pouco mais devagar. E nesses momentos, eu presto muita atenção em mim.
Tenho aqui dentro a dualidade, a ambiguidade dos sentimentos. Nem tudo é exatamente como eu expresso, e o que eu escrevo vale somente para hoje, amanhã eu já não sei...
Já cansei de questionar a vida sobre o que ela fez de mim e já não tenho mais tanto interesse em revirar as histórias para achar todos os “porquês” de todas as coisas... Olha, é mais fácil deixar pra lá.
Por enquanto, a ideia é conviver comigo e com o que de concreto tenho hoje. Focar nos objetivos e não pensar no que não foi ou no que poderia ter sido. Tem tempo correndo, tempo passando, tempo se dando.
Tem gente pra amar, pra cuidar.
Tem coisas para fazer.
Palavras para falar e escrever.
Tem texto, então tá bom.
“Nunca é tarde”, me disseram...
Eu tento acredito nisso.


Milla Borges

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Seus efeitos I


De olhos abertos, porém desacordada, enxergo.
A imagem em desacordo, o real de olhos fechados.
Sua essência que pulsa, me atinge, me acorda.
Não concordo com o que vejo.
A tua ausência me incomoda...
Em torno, sua foto, sua face. Meu desejo.
Devolvo a vontade do tato, do beijo.
À vontade, te deixo.
Dou corda...  Eu me escondo e faço graça.
Faço troça enquanto você disfarça.
A farsa por trás da verdade, almejo.
Seu rosto, seu gosto, sem texto.
O som além da palavra.
A dor que entremeia a saudade.
Me toca, arpejo.
A paixão que ninguém vê.
Desabo.
Sem sono.
Bocejo.
Em sonho, você.
Só você...

Milla Borges


domingo, 17 de novembro de 2013

Seduzida pela palavra II


E pra que tanta incerteza, se a vida passa tão rápida por nós e o tempo insiste em não dar trégua?
Qualquer sentimento, devidamente alimentado, tende a crescer dentro do peito e todas as palavras cultivadas, doadas e trocadas, transformam-se em cais, onde a dúvida se deita para repousar e se cobrir de ilusão. É... Talvez seja melhor romper com as palavras, pois palavras iludem. Palavras nos salvam e nos atiram na solidão de sempre. Solidão presente...
É que de fato, eu não tenho mais como colher justificativa. As metáforas já perderam seu sentido, e metáfora que não se justifica corre o risco de virar paradoxo. E maldito seja o paradoxo, que só vem pra confundir.
Que haja a possibilidade de nada mudar ou tudo acontecer... E que ainda assim eu possa sorrir.

 Milla Borges


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Espera


Ainda que me fosse dada a chance de um encontro despreocupado com o acaso, eu o temeria.
Não lido bem com a insegurança do incerto e confesso um medo certo das reações. Porém, de todas as reações possíveis, a indiferença é a que mais me faz tremer.
Tenho pensado muito em um confronto, contudo, ainda não me encorajei suficientemente...
Quem sabe um dia?
Até lá, nada muda.

Milla Borges

Seduzida pela palavra I


Ter esse relacionamento estreito com as palavras às vezes me serve como redenção, às vezes como castigo.
Palavra é coisa perigosa quando usada sem o devido cuidado pois seu poder é transformador e indefensável. É capaz de machucar, de ferir até a alma.
Em contrapartida, usar palavra como remédio é também de grande valia pois se algo dói por dentro, palavra cura e salva. É anestesia natural para casos do coração. É analgésico quando há feridas invisíveis e abertas espalhadas pelo corpo.
Há na simplicidade da palavra uma complexidade singular, e é exatamente essa dualidade que torna todo e qualquer discurso fascinante. Repito: TODO e QUALQUER.
A palavra envolve, seduz num jogo cego de poder, de liberdade, e mimeses e metáforas e hipérboles... A palavra te chama. Me chama. Me diz vem. Me traz o mundo e me tira a vida. Me devolve tudo em vida literária, em tom e escrita.

Milla Borges

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A arte do Desencanto


É que para se viver essa vida eu crio subterfúgios lúdicos que me permitem aliviar as constantes tensões das relações, o vazio covarde do peito que existe por defesa, a consciência de me saber mais frágil do que realmente aparento ser.
Venhamos e convenhamos: o lúdico salva.
Ao longo dos anos, desenvolvi a habilidade do sonho e isso tem sido alimento para minha alma. Com os sonhos me fortaleço, aprendo sobre mim e reproduzo a realidade, na realidade que crio.
Acontece que nem todos os sonhos são palpáveis e nem tudo que se sonha, se realiza. Sonho também se desfaz... Como na praia, um castelinho que é construído de areia, água e fantasia. De repente, o mar impetuoso, insensível (e inocente), o derruba sem dó, sem alerta, sem receio. Aí que está o paradoxo da dor: “me doeram” “ou me deixei doer” por essa dor que cura? (Afinal, se mudarmos a ótica, quando um sonho de desfaz,  nasce a possibilidade de sonhar outros sonhos novos...)
Será que a culpa é do mar, que não soube medir a sua intensidade e afogou, então, as minhas fantasias? Ou a culpa é toda minha que finquei os sonhos onde bem quis, sem avaliar o terreno, os alicerces, sem medir os riscos?
Está aí a arte do desencanto. Criar o encanto para depois desencantar. Se deixar encantar para depois ver o encanto ser quebrado.
A grande questão que me sonda é até que ponto eu idealizo pessoas, situações... Iludo-me com falsas esperanças.  Até que ponto eu me permito ser ludibriada por aquilo que as pessoas escolhem me mostrar delas próprias ou por perspectivas ine
xatas, que as situações apontam como possibilidades reais (porém sem qualquer garantia).
Não consigo definir ao certo se o desencanto ajuda a prevenir dores futuras ou nos priva de alegrias possíveis. Até que ponto acreditar e permitir norteia a margem dos sonhos? E do real? E do sonho real?
No mais, penso que o encanto-desencanto é processo vital. É como dormir-acordar, falar-calar, viver-morrer. Faz parte, tem peso, é preciso.
E nós somos os artistas dessa arte.
É preciso saber lidar para saber viver.
É preciso.

Milla Borges



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tão longe...

Saudades imensas de mim... Há dias que me distancio do mundo, e de tudo aquilo que possibilite a minha conexão com ele. Por vezes, me perco. Me esvazio... Fico à deriva de meus pensamentos loucos, à margem dos sentimentos estranhos, à mercê de impulsos insanos. Eu sou assim. Só não sei dizer bem como...

Milla Borges

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O tal do amor

O que me salva da vida é o amor que sinto.
A rotina sufoca, o tempo corre, a cabeça explode, os nervos enrijecem, o sangue ferve... Mas o amor está ali.
No momento da pressa, o amor traz a calma. No instante do berro, ele traz o silêncio. Na hora do drama, ele se encarrega de me trazer o sorriso...
É... Ainda bem que existe o tal do amor para o resgate dos dias sem fim.

 Milla Borges

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Cacos

Restos de mim espalhados pelos cantos da casa, como se um dia eu tivesse sido corte. Nunca fui. Também não é certo dizer que fui metade, porque ao meio encontra-se certo equilíbrio. Equilíbrio não combina com o meu emocional. O que também não significa que nunca fui inteira. Na verdade inteira eu fui, inteira eu sou. Hoje é que estou em pedaços. Algumas partes aproveitadas para um bem muito maior, partes doadas ao lúdico, ao sonho, à imaginação. Os restos ficaram espalhados na realidade dessa casa fria.
Nem bem me junto, já existe algo disposto a decepar partes inteiras de mim. Fragmentar sentimentos, expandir conflitos, estender as tensões. Acostumei a ser assim. Acostumei a deixar que a vida me faça isso. Vez ou outra agradeço a viagem. Me jogo, me lanço, me solto no vento e me deixo levar. Se o pensamento voa, deixo que o corpo, inteiro ou não, voe junto com tudo que seja leve o suficiente para decolar.
As partes vagas, o vago pensar, não há vagas nos meus espaços que caibam pedaços alheios. Preencho-me com o que leio aqui, o que ouço ali, ou o que eu invento nas horas vagas. Separo o que fica. Clareio.
A casa continua fria, são restos quentes no chão.
Me apanhe.
Me leve no bolso se não couber no coração.
Transbordo.

 Milla Borges

quinta-feira, 11 de julho de 2013

É fácil.


Nem era pra ser tudo tão difícil assim, sempre, mas parece que as coisas quando são muito fáceis se desvalorizam com o tempo. Isso me leva a crer que a dureza da vida é que vai encaminhar os seres humanos para um viver muito melhor, mais saboroso. Grande engano! Acontece, que nada apetece aos que, acostumados com a atitude rude da existência, se tornam difíceis, pessoas difíceis, juntamente com as coisas dessa vida. Fica tudo mais difícil... Coisas, pessoas, humores, conquistas... E aí?
E aí?
Eu que já dificultei tanto as coisas decidi facilitar...
Não acredito mais na dificuldade. Ou melhor, acredito, mas não a temo mais...
Facilito as coisas. E pronto.
Facilito o papo, a passagem, o perdão, as conversas, as amizades.
Não me importo em ser assim tão fácil... Um sorriso já me ganha, uma flor já me modifica, um dia de sol já me satisfaz. Fácil, simples, como a vida tem que ser.
É... A vida tem que ser.
Exercitar a facilidade para praticar a felicidade.
Nem dói e é bom.
Viver é fácil.
Só acho.

Milla Borges.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

É possível


Será que eu vou caber na medida do possível?
Será que eu vou ser a possibilidade cabível (nos seus sonhos)?
Eu que nem alcanço alguns de meus pensamentos mais estranhos, conseguirei passar por tua boca sem esbarrar nos teus segredos?
Eu vou criar um plano para despertar o teu encantamento. E juro que não tentarei  te entender. Todo entendimento é pouco quando o que se pensa é a abstração do ser, tudo que se quer é desejar outra esfera. Outra atmosfera.
Imagino as frases soltas, os seus dedos enrolando uma mechinha do meu cabelo, o olhar baixo e tímido para não ter que encarar a realidade. A vida já é real demais... Fantasiar é tão melhor... Realizar a fantasia deve ser muito, muito melhor...
Imagino o silêncio de um primeiro momento, imagino as risadas, as viagens e quase sinto o calor de um abraço algum tempo depois.
Ouço passos lado a lado e com algum esforço vejo sombras longas e magras passeando pelos muros...
Percebo mãos inquietas,  aventureiras e ávidas por tocar e serem tocadas. Mãos que precisam se sentir, umas às outras.
Será que a tua presença preenche esse vazio que eu tenho aqui?
Será que as dúvidas que carrego pesam sobre a minha vontade?
Será que saberei escolher as palavras certas para agradar os teus ouvidos?
A felicidade da existência tua me possibilita a forma plural de um só ser (um ser só), que, como mágica, torna-se dois. Um eu, um tu, que vira um nós. Se unem com nós. (Dois seres sós).
Será que enlaço?
Tantas possibilidades...
Das impossibilidades me desvencilho. Nem ligo.
Se eu imagino... Imagino.
Eu só quero caber na medida do possível...

Milla Borges 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

De Noite


Era noite e eu resolvi caminhar um pouco.
Vesti um casaco fininho e me atirei nas ruas desertas da cidade...
A lua estava viva, estava majestosa na solidão daquele negro céu... Olhei os prédios, vi as luzes de alguns apartamentos e imaginei as famílias felizes que, juntas, jantavam e falavam de suas vidas... Continuei seguindo, meio sem saber pra onde.
O ventinho da noite me trazia saudades do meu adolescer... As aventuras, a madrugada sempre amiga, os amores escondidos, os beijos no portão...
Ahhh quantas histórias, quantas memórias, quantas sensações guardadas em mim. Como é bom revivê-las em pensamento, como me é agradável a noite vazia e tudo o que ela ocasiona em meu interior...
Além das lembranças, os sons dos meus passos, alguns faróis, morcegos... Tudo isso me envolvia naquele anoitecer tão meu. Tão eu. Tão só.
Meu caminhar fluía por ruas e esquinas e praças... Muitos passos, muitas poesias noturnas brotando. E um arrependimento: Não havia levado meu bloquinho de papel...
Tudo bem... Inspiração retorna, se refaz num momento qualquer.
Num passeio da noite, num devaneio do dia, numa vida de fé, nas horas de luxo, nas risadas bobas... A inspiração uma hora ou outra me encontra... Não tem jeito.
De repente eu estava de volta ao meu portão. Subi as escadas. Entrei em casa...
Tomei banho.
Adormeci.

Milla Borges



terça-feira, 4 de junho de 2013

O que há?


Nada é suficiente.
Tudo anda carregado de faltas.
Falta na mente, falta nos braços, falta no coração.
As ausências me preenchem, porque conter não cabe a mim.
Não nasci para reter... Eu desperdiço todas as coisas que sinto...
Lá se vai a raiva, o amor, a alegria... Esbanjo.
 De tristeza é que sempre fica um restinho.
Daí, as coisas esgotam. E faltam.
O que sobra?
Um peito cheio de sentimentos vazios...


Milla Borges

sábado, 1 de junho de 2013

Pra você...


Não é da sorte de se viver de amor e para o amor que provém o meu sorriso;
Não é da paz latente na certeza do ombro amigo que se faz a minha alegria;
Não é da clareza de se saber mulher amada, que se refaz a minha calma...
Tampouco conto as pulsações descompassadas para justificar a sua presença, não é isso...
É tão maior...
De tanto zelo, se mantém o laço;
O cuidado, a história, os detalhes...
Da aceitação dos defeitos ao direito de errar;
O direito de errar transformando-se na vontade de ser melhor.
Das mãos que se tocam, ao calor do abraço;
É se dar ao luxo de experimentar a solidão,
Na certeza de que solidão não há, é só capricho...
O silêncio que fala mais que qualquer palavra...
E só de olhar nos teus olhos, a vida já me vale a pena.

- Milla Borges -



quarta-feira, 24 de abril de 2013


Eu continuo aqui, perdida nos becos desconhecidos dos meus sentidos, nas confusões dos meus sentimentos desordenados e desconexos, tentando encontrar as explicações que me cabem para que eu possa conseguir o tal equilíbrio que tanto preciso. Meus olhos já não são mais capazes de ver e distinguir as formas e as cores que o mundo me oferece. Então, eu sinto a vida através do toque e vou tateando meus espaços para saber exatamente onde estou. Essa habilidade do tocar soma-se ao desastre do sentir. Sempre fui desastrada e tendo assim derramado aquilo que sinto, por vezes, habita em mim um vazio. Um vazio que rasga o corpo por dentro.
Tenho aberto mão de valores nunca antes desprezados e o exercício intenso da vida se torna o grande causador das maiores culpas, das maiores punições e das mais covardes torturas psicológicas. Para não surtar, me utilizo da palavra e do silêncio, alternando-os de acordo com minhas necessidades, anestesiando deste modo o coração.
O único problema desse procedimento é que o tempo da anestesia é curto e chega o momento que nem as palavras mais doces e nem o silêncio mais absurdo consegue segurar os impulsos do peito. A cabeça é fraca e o peito é mandão demais. O conflito é doloroso. Dói muito. Dói uma dor apertada, sentida...  Uma dor que precisa se dividir e ser dividida.... Mas aí é que está... Quem se interessa pelo sofrer alheio?
O grande segredo está em aprender a sofrer quietinha. A extrair da dor uma calma que só quem sofre é capaz de ter. Aprimorar minha habilidade de pintar sorrisos e, deixar que o amanhã chegue para aliviar a tensão do hoje.
Cada dia tem o peso da solidão e o vazio acaba se tornando companhia, já que eu renuncio a liberdade.
Não há mal nenhum em ser assim. (Não há contradição maior que ser assim.)
Ando meio cansada disso tudo... Acho que estou fora de mim. Em algum lugar por aí.
É...
Um dia eu me encontro em meio aos tumultos de mim mesma.
Um dia aprendo a estar viva.

Milla Borges

terça-feira, 16 de abril de 2013


Sofro a dor dos angustiados, dos sensíveis, dos poetas.
Penso demais, falo demais, me ausento demais, erro demais...
Minhas palavras intranquilas sujam os papéis, mas não produzem o alívio esperado.
Me perco noite a dentro em meio as letras, e cigarros, e pensamos desconexos, ideias soltas, e não encontro em mim um sentido que defina meu ser. Meu ser assim...
As unhas já roídas, o coração também roído, os sentimentos corrompidos, estilhaçados.
Tomo o cuidado de manter as portas fechadas, bem como meus olhos.
Nem o vento nem a luz são bem vindos por aqui, pelo menos por enquanto.
Nada pode ser levado ou visto sem antes estancar esse rio de devaneios que escorre daqui de dentro.
Os sentidos aflorados gritam, mas todas as palavras decidiram se calar.
O que fazer? Como lidar?
Esquece!
Rasgo tudo com uma fúria de morte, e faço chover pela janela a poesia que não nasceu...

Milla Borges


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Num piscar de olhos...


No leito de morte
O grito do mundo
O sonho à sorte
O suspiro profundo
A faca, o corte
O pensamento oriundo
A pressa, o porte
A dor de um segundo
A fé sem suporte
O passado imundo
Eu tento ser forte...

 (Eu juro)

Milla Borges

segunda-feira, 18 de março de 2013

Eu preciso ir.


Eu preciso ir.
Não como quem vai com data para voltar, mas como quem vai e não sabe se fica, não sabe se volta... Como quem vai e tem que decidir e tem que se virar, e se saber, e se foder, e se arriscar, para se viver.
Eu preciso ir.
Não que os espaços de hoje não me ocupem e nem que eu não caiba mais neles, não é nada disso. O fato é que de grandes vazios tem sido feita a minha existência, e para grandes vazios existenciais não há alma suficientemente grande que se sustente suspensa nesse nada. Minha alma é pequena ainda, e eu preciso mesmo ir.
Aqui eu já não tenho muitos sonhos e nem posso fazer muitos planos, pois a densidade de todas as impossibilidades comprime meus pensamentos, todos os olhares aguçados sobre mim cegam o meu imaginário, toda lógica e toda obrigação de futuro espremem meus pulmões e todas essas certezas impostas me sufocam tanto... E eu vou ficando seca, eu vou perdendo aquilo que dava brilho à tez, eu fico tonta, eu fico louca... Eu escapo. Fujo sem sair do lugar. Desse lugar. Desse lugar que não mais me convém. É sério... Eu preciso ir.
É preciso que fique claro... Não é o lugar o que me motiva a partir, é o partir em si. O precisar chegar, ver o novo, o medo que dá, a falta de ar, o sono, a fome, a preguiça, o nexo e, sobretudo a solidão. Como se nenhuma dor me fosse necessária para que eu pudesse então ser livre, mas é óbvio que a liberdade precisa necessariamente doer para ter algum valor, então eu deixo-me doer inteira. Que se rasgue a pele, que escorra o sangue, que se fure o peito, que se sofra toda liberdade contida nessa solidão tão minha... Tão una. Tão amálgama. Solidão que me solicita...
Das experiências de quem parte, eu levo a história já contada e os sentimentos já vividos. E não me importo em repetir certas trajetórias, já que repetir será o meu facilitador. Não quero a mesma visão de mundo nem a mesma noção de tempo. Lá eu resolvo o que querer. Por enquanto eu só sei o que não quero. Aqui me largo. Me esqueço. Me abandono, para enfim me amar por dentro. Que seja só, e não a dois. Que seja meu e não de outrem. Que seja ao céu e não ao léu... Que seja eu. Que seja o que tiver que ser. E fim.
Eu preciso ir, de verdade.

 Milla Borges
 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Eu sinto saudades do meu All Star Vermelho...


Eu só estava aqui lembrando de coisas... E lembrando de saudades que eu sentia antigamente.
É, eu estava aqui quietinha, cultivando a saudade da saudade...
Naquela época éramos loucos, eram poucos, e eu tinha a certeza de que éramos os mais lúcidos, ou mais lúdicos, os mais lógicos do mundo!
Eu andava só de calcinha pela casa sem me importar se o vizinho ia me ver ou se a velha do apartamento da frente ia reclamar com o síndico. Foda-se! Eu sentia a liberdade de ser o que eu quisesse ser.
Eu achava que o mundo girava ao redor do piercing do meu umbigo.
E ao fechar os olhos, minha mente é que girava ao redor do mundo...
Verdade seja dita: eu nunca soube o significado da palavra limite. Aliás, tenho minhas dúvidas se essa palavra existia no meu vocabulário... Sabia que hoje eu sinto saudades de desconhecer limites? Sinto sim... Eu lembro. Mas não gostaria de voltar. Estranho, né?
E hoje eu sinto tanta saudade daqueles momentos em que eu me deitava no carpete mesmo, fechava as cortinas e ficava ali sentindo outras saudades.
Mesmo com toda a loucura, mesmo com todas as latinhas de cervejas espalhadas pelo chão, e mesmo com o carpete todo queimado de cigarros e baseados, eu sentia saudade...
Várias saudades...
Saudade da criança que eu fui. É sério, eu já fui criança um dia! E você pode não se lembrar, mas você foi uma criança também. Uma criança bem cabeçudinha, porque eu já vi uma foto! Eu estava aqui, sentindo saudade de sentir saudades da proteção e também de alguns abraços. Cara, que merda!  Que merda não poder voltar no tempo nem que seja um pouquinho, né? Acho nada a ver isso, de não poder voltar no tempo...
Acho que é por isso que existe a saudade. Acho que Deus criou a saudade num momento de descuido, sei lá... Ele se distraiu e acabou inventando isso... Isso de sentir saudades.
Sabe do que mais eu sentia saudade naquela época? De pensar que no futuro ia ser tudo diferente. É... Eu falava assim: Vai ser tudo diferente. Aí, né, quando eu ia tomar banho, eu ficava lá pensando no futuro, imaginando as histórias, fantasiando as coisas que ia acontecer, saca?! Criava diálogos e tudo! Ficava horas no box, conversando com as paredes...
Da nossa história eu não sinto saudade não. Quer dizer, sinto saudades só do dia em que a gente se conheceu. Porque eu achei bonito... Achei poético...  Duas tristezas que se uniram para ser mais tristes ainda, só que juntos... Eu estava com uma blusa com fundo azul  e tinha uma margarida bem no centro e eu estava usando aquele meu All Star vermelho. Você lembra a primeira coisa que você disse pra mim quando nos apresentaram? Lembra? Você disse assim: Prazer. Odeio mulher de All Star. Hahahahahahaha! Achei ridículo você dizer aquilo... Mas depois eu percebi que você só estava sem graça e nervoso...
Sua tristeza precisava da minha e a minha solidão precisava da sua.
Eu sinto saudades do meu All Star vermelho... Poxa... Eu amava ele. Que saudade dele. Depois que eu voltei pra casa minha avó jogou ele fora. Poxa, fiquei triste. Eu gostava muito dele.
É...
É só disso que eu sinto saudades. Depois a gente fez um mundo só nosso, né...
A gente era muito estranho, muito só nós dois e mais ninguém, muito pra nós... Muito entregues ao prazer que o morrer aos poucos nos causava... E era bem isso mesmo, você sabe... Era morrer. Juntos, iríamos morrer cedo.
Dessa sensação eu não sinto saudade não... Sensação de morte próxima, credo! Nunca mais...
Já senti sim saudades da loucura, da vida louca, de ficar na dúvida se é sonho ou realidade, de gritar um refrão pela janela da sala cagando pro sono dos vizinhos, de dormir 15 horas seguidas, de ficar acordada 48 horas seguidas... Lembra não? Hein? Lembra disso? Mas hoje em dia não é mais saudade isso. É só lembrança. Que não é boa nem ruim. É só lembrança.
Nem sei se vale a pena ficar aqui falando disso.
Quer saber? 
Por hora... Foda-se tudo.
Sentir saudade é o cacete.

 Milla Borges