quinta-feira, 27 de junho de 2013

É possível


Será que eu vou caber na medida do possível?
Será que eu vou ser a possibilidade cabível (nos seus sonhos)?
Eu que nem alcanço alguns de meus pensamentos mais estranhos, conseguirei passar por tua boca sem esbarrar nos teus segredos?
Eu vou criar um plano para despertar o teu encantamento. E juro que não tentarei  te entender. Todo entendimento é pouco quando o que se pensa é a abstração do ser, tudo que se quer é desejar outra esfera. Outra atmosfera.
Imagino as frases soltas, os seus dedos enrolando uma mechinha do meu cabelo, o olhar baixo e tímido para não ter que encarar a realidade. A vida já é real demais... Fantasiar é tão melhor... Realizar a fantasia deve ser muito, muito melhor...
Imagino o silêncio de um primeiro momento, imagino as risadas, as viagens e quase sinto o calor de um abraço algum tempo depois.
Ouço passos lado a lado e com algum esforço vejo sombras longas e magras passeando pelos muros...
Percebo mãos inquietas,  aventureiras e ávidas por tocar e serem tocadas. Mãos que precisam se sentir, umas às outras.
Será que a tua presença preenche esse vazio que eu tenho aqui?
Será que as dúvidas que carrego pesam sobre a minha vontade?
Será que saberei escolher as palavras certas para agradar os teus ouvidos?
A felicidade da existência tua me possibilita a forma plural de um só ser (um ser só), que, como mágica, torna-se dois. Um eu, um tu, que vira um nós. Se unem com nós. (Dois seres sós).
Será que enlaço?
Tantas possibilidades...
Das impossibilidades me desvencilho. Nem ligo.
Se eu imagino... Imagino.
Eu só quero caber na medida do possível...

Milla Borges 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

De Noite


Era noite e eu resolvi caminhar um pouco.
Vesti um casaco fininho e me atirei nas ruas desertas da cidade...
A lua estava viva, estava majestosa na solidão daquele negro céu... Olhei os prédios, vi as luzes de alguns apartamentos e imaginei as famílias felizes que, juntas, jantavam e falavam de suas vidas... Continuei seguindo, meio sem saber pra onde.
O ventinho da noite me trazia saudades do meu adolescer... As aventuras, a madrugada sempre amiga, os amores escondidos, os beijos no portão...
Ahhh quantas histórias, quantas memórias, quantas sensações guardadas em mim. Como é bom revivê-las em pensamento, como me é agradável a noite vazia e tudo o que ela ocasiona em meu interior...
Além das lembranças, os sons dos meus passos, alguns faróis, morcegos... Tudo isso me envolvia naquele anoitecer tão meu. Tão eu. Tão só.
Meu caminhar fluía por ruas e esquinas e praças... Muitos passos, muitas poesias noturnas brotando. E um arrependimento: Não havia levado meu bloquinho de papel...
Tudo bem... Inspiração retorna, se refaz num momento qualquer.
Num passeio da noite, num devaneio do dia, numa vida de fé, nas horas de luxo, nas risadas bobas... A inspiração uma hora ou outra me encontra... Não tem jeito.
De repente eu estava de volta ao meu portão. Subi as escadas. Entrei em casa...
Tomei banho.
Adormeci.

Milla Borges



terça-feira, 4 de junho de 2013

O que há?


Nada é suficiente.
Tudo anda carregado de faltas.
Falta na mente, falta nos braços, falta no coração.
As ausências me preenchem, porque conter não cabe a mim.
Não nasci para reter... Eu desperdiço todas as coisas que sinto...
Lá se vai a raiva, o amor, a alegria... Esbanjo.
 De tristeza é que sempre fica um restinho.
Daí, as coisas esgotam. E faltam.
O que sobra?
Um peito cheio de sentimentos vazios...


Milla Borges

sábado, 1 de junho de 2013

Pra você...


Não é da sorte de se viver de amor e para o amor que provém o meu sorriso;
Não é da paz latente na certeza do ombro amigo que se faz a minha alegria;
Não é da clareza de se saber mulher amada, que se refaz a minha calma...
Tampouco conto as pulsações descompassadas para justificar a sua presença, não é isso...
É tão maior...
De tanto zelo, se mantém o laço;
O cuidado, a história, os detalhes...
Da aceitação dos defeitos ao direito de errar;
O direito de errar transformando-se na vontade de ser melhor.
Das mãos que se tocam, ao calor do abraço;
É se dar ao luxo de experimentar a solidão,
Na certeza de que solidão não há, é só capricho...
O silêncio que fala mais que qualquer palavra...
E só de olhar nos teus olhos, a vida já me vale a pena.

- Milla Borges -