terça-feira, 24 de setembro de 2013

Cacos

Restos de mim espalhados pelos cantos da casa, como se um dia eu tivesse sido corte. Nunca fui. Também não é certo dizer que fui metade, porque ao meio encontra-se certo equilíbrio. Equilíbrio não combina com o meu emocional. O que também não significa que nunca fui inteira. Na verdade inteira eu fui, inteira eu sou. Hoje é que estou em pedaços. Algumas partes aproveitadas para um bem muito maior, partes doadas ao lúdico, ao sonho, à imaginação. Os restos ficaram espalhados na realidade dessa casa fria.
Nem bem me junto, já existe algo disposto a decepar partes inteiras de mim. Fragmentar sentimentos, expandir conflitos, estender as tensões. Acostumei a ser assim. Acostumei a deixar que a vida me faça isso. Vez ou outra agradeço a viagem. Me jogo, me lanço, me solto no vento e me deixo levar. Se o pensamento voa, deixo que o corpo, inteiro ou não, voe junto com tudo que seja leve o suficiente para decolar.
As partes vagas, o vago pensar, não há vagas nos meus espaços que caibam pedaços alheios. Preencho-me com o que leio aqui, o que ouço ali, ou o que eu invento nas horas vagas. Separo o que fica. Clareio.
A casa continua fria, são restos quentes no chão.
Me apanhe.
Me leve no bolso se não couber no coração.
Transbordo.

 Milla Borges

6 comentários:

  1. Muito bom o texto, amor! Com certeza, um dos melhores!
    Quero te levar no coração, no bolso, onde der! Pra sempre!
    Beijooos

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  2. Sem palavras. Muito lindo. Não sei você sabe mas recentemente criei uma fan page do Absinto no FB. Lá costumo divulgar o trabalho de outros blogueiros. Posso publicar esse texto com link para cá?

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    1. Olá Malu! Obrigada pela visita! Pode publicar sim, me sinto honrada!
      Vou curtir sua página no face!
      Grande beijo!

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  3. Sempre se diz, mas ainda bem que muitas vezes fica no dizer,
    que um vaso quebrado, jamais será o mesmo.
    Mas tudo depende sim, do coração de quem ajunta os cacos.

    Beijo

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    1. Obrigada pela visita!
      Os cacos me dão certa multiplicidade.
      E lançando um olhar otimista, é até bom que seja assim!

      Uma beijoca!

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