quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A arte do Desencanto


É que para se viver essa vida eu crio subterfúgios lúdicos que me permitem aliviar as constantes tensões das relações, o vazio covarde do peito que existe por defesa, a consciência de me saber mais frágil do que realmente aparento ser.
Venhamos e convenhamos: o lúdico salva.
Ao longo dos anos, desenvolvi a habilidade do sonho e isso tem sido alimento para minha alma. Com os sonhos me fortaleço, aprendo sobre mim e reproduzo a realidade, na realidade que crio.
Acontece que nem todos os sonhos são palpáveis e nem tudo que se sonha, se realiza. Sonho também se desfaz... Como na praia, um castelinho que é construído de areia, água e fantasia. De repente, o mar impetuoso, insensível (e inocente), o derruba sem dó, sem alerta, sem receio. Aí que está o paradoxo da dor: “me doeram” “ou me deixei doer” por essa dor que cura? (Afinal, se mudarmos a ótica, quando um sonho de desfaz,  nasce a possibilidade de sonhar outros sonhos novos...)
Será que a culpa é do mar, que não soube medir a sua intensidade e afogou, então, as minhas fantasias? Ou a culpa é toda minha que finquei os sonhos onde bem quis, sem avaliar o terreno, os alicerces, sem medir os riscos?
Está aí a arte do desencanto. Criar o encanto para depois desencantar. Se deixar encantar para depois ver o encanto ser quebrado.
A grande questão que me sonda é até que ponto eu idealizo pessoas, situações... Iludo-me com falsas esperanças.  Até que ponto eu me permito ser ludibriada por aquilo que as pessoas escolhem me mostrar delas próprias ou por perspectivas ine
xatas, que as situações apontam como possibilidades reais (porém sem qualquer garantia).
Não consigo definir ao certo se o desencanto ajuda a prevenir dores futuras ou nos priva de alegrias possíveis. Até que ponto acreditar e permitir norteia a margem dos sonhos? E do real? E do sonho real?
No mais, penso que o encanto-desencanto é processo vital. É como dormir-acordar, falar-calar, viver-morrer. Faz parte, tem peso, é preciso.
E nós somos os artistas dessa arte.
É preciso saber lidar para saber viver.
É preciso.

Milla Borges



2 comentários:

  1. Que lindo ! Como sinto isso. Uns dias até dói. Sempre bom te ler. Olha, criei uma fan page do absinto e queria te pedir permissão para divulgar seus textos lá. Sempre com link para cá, é claro. E fica o convite para curtir a página lá.
    Bjs

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    1. Malu, quanta honra! Lógico que permito! Por favor, me mande o link que eu divulgo aqui!

      Obrigada pelo carinho!

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