quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sutilezas


A lágrima é tão vítima da noite quanto um sonho que é interrompido por um despertar sobressaltado. É na solidão noturna que a vida se faz notar por sua sensível maneira de tocar o coração.
As sutilezas que fazem brotar o choro.
A sensibilidade que justifica a lágrima.
O silêncio que justifica a noite...

Milla Borges


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Trajetória


Peço passagem, peço perdão, tropeço.
Pego implicância, exponho pessoas, me perco.
Parto em pedaços, pergunto se posso, (não posso), esqueço.
Passo a pergunta, publico a palavra, escrevo.
Permito o pecado, percebo o passado, arrependo.
Ponho em pauta, peso a resposta, acerto.
Penso nos pontos, acho o problema, nem ligo.
Pinto o futuro, te ponho em perigo, comigo.
Te levo pra sempre, proponho a partida, insisto.
Escondo o presente, deixo pra lá...
Desisto.

Milla Borges

domingo, 24 de novembro de 2013

Nunca é tarde


Eu já tive mais de mim para dizer.
Na verdade eu já fui uma garota muito mais interessante.
Hoje eu sou só uma mulher comum, com sonhos possíveis e distantes, alguns impossíveis e prováveis.
Tenho neuras absurdas fundamentadas em uma vida inteira de pensamentos exacerbados, possuo em mim abismos, precipícios, amenidades, serenidades, sorrisos, angustias e algumas alegrias.
Não há muito que dizer. Aquele brilho de outrora se apagou. Ou está se apagando lentamente.
Por muito tempo fiz um esforço gigante em preservar o vigor dos meus impulsos, em exaltar toda liberdade que sempre me aprisionou. Hoje não mais.
Toda aquela necessidade de permanecer na claridade e na altitude já se foi. Atualmente, eu gostaria de me esconder um pouquinho só para ficar mais comigo mesma. Para tentar conhecer esse novo eu, que sem me pedir permissão, se apodera de mim.
Contudo, posso até dizer que me sinto mais calma. Não menos angustiada com o mundo e o futuro, mas hoje eu sei que há em mim uma calma inexata e incompleta, que de vez em quando vem e me faz parar e respirar um pouco mais devagar. E nesses momentos, eu presto muita atenção em mim.
Tenho aqui dentro a dualidade, a ambiguidade dos sentimentos. Nem tudo é exatamente como eu expresso, e o que eu escrevo vale somente para hoje, amanhã eu já não sei...
Já cansei de questionar a vida sobre o que ela fez de mim e já não tenho mais tanto interesse em revirar as histórias para achar todos os “porquês” de todas as coisas... Olha, é mais fácil deixar pra lá.
Por enquanto, a ideia é conviver comigo e com o que de concreto tenho hoje. Focar nos objetivos e não pensar no que não foi ou no que poderia ter sido. Tem tempo correndo, tempo passando, tempo se dando.
Tem gente pra amar, pra cuidar.
Tem coisas para fazer.
Palavras para falar e escrever.
Tem texto, então tá bom.
“Nunca é tarde”, me disseram...
Eu tento acredito nisso.


Milla Borges

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Seus efeitos I


De olhos abertos, porém desacordada, enxergo.
A imagem em desacordo, o real de olhos fechados.
Sua essência que pulsa, me atinge, me acorda.
Não concordo com o que vejo.
A tua ausência me incomoda...
Em torno, sua foto, sua face. Meu desejo.
Devolvo a vontade do tato, do beijo.
À vontade, te deixo.
Dou corda...  Eu me escondo e faço graça.
Faço troça enquanto você disfarça.
A farsa por trás da verdade, almejo.
Seu rosto, seu gosto, sem texto.
O som além da palavra.
A dor que entremeia a saudade.
Me toca, arpejo.
A paixão que ninguém vê.
Desabo.
Sem sono.
Bocejo.
Em sonho, você.
Só você...

Milla Borges


domingo, 17 de novembro de 2013

Seduzida pela palavra II


E pra que tanta incerteza, se a vida passa tão rápida por nós e o tempo insiste em não dar trégua?
Qualquer sentimento, devidamente alimentado, tende a crescer dentro do peito e todas as palavras cultivadas, doadas e trocadas, transformam-se em cais, onde a dúvida se deita para repousar e se cobrir de ilusão. É... Talvez seja melhor romper com as palavras, pois palavras iludem. Palavras nos salvam e nos atiram na solidão de sempre. Solidão presente...
É que de fato, eu não tenho mais como colher justificativa. As metáforas já perderam seu sentido, e metáfora que não se justifica corre o risco de virar paradoxo. E maldito seja o paradoxo, que só vem pra confundir.
Que haja a possibilidade de nada mudar ou tudo acontecer... E que ainda assim eu possa sorrir.

 Milla Borges


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Espera


Ainda que me fosse dada a chance de um encontro despreocupado com o acaso, eu o temeria.
Não lido bem com a insegurança do incerto e confesso um medo certo das reações. Porém, de todas as reações possíveis, a indiferença é a que mais me faz tremer.
Tenho pensado muito em um confronto, contudo, ainda não me encorajei suficientemente...
Quem sabe um dia?
Até lá, nada muda.

Milla Borges

Seduzida pela palavra I


Ter esse relacionamento estreito com as palavras às vezes me serve como redenção, às vezes como castigo.
Palavra é coisa perigosa quando usada sem o devido cuidado pois seu poder é transformador e indefensável. É capaz de machucar, de ferir até a alma.
Em contrapartida, usar palavra como remédio é também de grande valia pois se algo dói por dentro, palavra cura e salva. É anestesia natural para casos do coração. É analgésico quando há feridas invisíveis e abertas espalhadas pelo corpo.
Há na simplicidade da palavra uma complexidade singular, e é exatamente essa dualidade que torna todo e qualquer discurso fascinante. Repito: TODO e QUALQUER.
A palavra envolve, seduz num jogo cego de poder, de liberdade, e mimeses e metáforas e hipérboles... A palavra te chama. Me chama. Me diz vem. Me traz o mundo e me tira a vida. Me devolve tudo em vida literária, em tom e escrita.

Milla Borges