sábado, 12 de janeiro de 2013

Eu sinto saudades do meu All Star Vermelho...


Eu só estava aqui lembrando de coisas... E lembrando de saudades que eu sentia antigamente.
É, eu estava aqui quietinha, cultivando a saudade da saudade...
Naquela época éramos loucos, eram poucos, e eu tinha a certeza de que éramos os mais lúcidos, ou mais lúdicos, os mais lógicos do mundo!
Eu andava só de calcinha pela casa sem me importar se o vizinho ia me ver ou se a velha do apartamento da frente ia reclamar com o síndico. Foda-se! Eu sentia a liberdade de ser o que eu quisesse ser.
Eu achava que o mundo girava ao redor do piercing do meu umbigo.
E ao fechar os olhos, minha mente é que girava ao redor do mundo...
Verdade seja dita: eu nunca soube o significado da palavra limite. Aliás, tenho minhas dúvidas se essa palavra existia no meu vocabulário... Sabia que hoje eu sinto saudades de desconhecer limites? Sinto sim... Eu lembro. Mas não gostaria de voltar. Estranho, né?
E hoje eu sinto tanta saudade daqueles momentos em que eu me deitava no carpete mesmo, fechava as cortinas e ficava ali sentindo outras saudades.
Mesmo com toda a loucura, mesmo com todas as latinhas de cervejas espalhadas pelo chão, e mesmo com o carpete todo queimado de cigarros e baseados, eu sentia saudade...
Várias saudades...
Saudade da criança que eu fui. É sério, eu já fui criança um dia! E você pode não se lembrar, mas você foi uma criança também. Uma criança bem cabeçudinha, porque eu já vi uma foto! Eu estava aqui, sentindo saudade de sentir saudades da proteção e também de alguns abraços. Cara, que merda!  Que merda não poder voltar no tempo nem que seja um pouquinho, né? Acho nada a ver isso, de não poder voltar no tempo...
Acho que é por isso que existe a saudade. Acho que Deus criou a saudade num momento de descuido, sei lá... Ele se distraiu e acabou inventando isso... Isso de sentir saudades.
Sabe do que mais eu sentia saudade naquela época? De pensar que no futuro ia ser tudo diferente. É... Eu falava assim: Vai ser tudo diferente. Aí, né, quando eu ia tomar banho, eu ficava lá pensando no futuro, imaginando as histórias, fantasiando as coisas que ia acontecer, saca?! Criava diálogos e tudo! Ficava horas no box, conversando com as paredes...
Da nossa história eu não sinto saudade não. Quer dizer, sinto saudades só do dia em que a gente se conheceu. Porque eu achei bonito... Achei poético...  Duas tristezas que se uniram para ser mais tristes ainda, só que juntos... Eu estava com uma blusa com fundo azul  e tinha uma margarida bem no centro e eu estava usando aquele meu All Star vermelho. Você lembra a primeira coisa que você disse pra mim quando nos apresentaram? Lembra? Você disse assim: Prazer. Odeio mulher de All Star. Hahahahahahaha! Achei ridículo você dizer aquilo... Mas depois eu percebi que você só estava sem graça e nervoso...
Sua tristeza precisava da minha e a minha solidão precisava da sua.
Eu sinto saudades do meu All Star vermelho... Poxa... Eu amava ele. Que saudade dele. Depois que eu voltei pra casa minha avó jogou ele fora. Poxa, fiquei triste. Eu gostava muito dele.
É...
É só disso que eu sinto saudades. Depois a gente fez um mundo só nosso, né...
A gente era muito estranho, muito só nós dois e mais ninguém, muito pra nós... Muito entregues ao prazer que o morrer aos poucos nos causava... E era bem isso mesmo, você sabe... Era morrer. Juntos, iríamos morrer cedo.
Dessa sensação eu não sinto saudade não... Sensação de morte próxima, credo! Nunca mais...
Já senti sim saudades da loucura, da vida louca, de ficar na dúvida se é sonho ou realidade, de gritar um refrão pela janela da sala cagando pro sono dos vizinhos, de dormir 15 horas seguidas, de ficar acordada 48 horas seguidas... Lembra não? Hein? Lembra disso? Mas hoje em dia não é mais saudade isso. É só lembrança. Que não é boa nem ruim. É só lembrança.
Nem sei se vale a pena ficar aqui falando disso.
Quer saber? 
Por hora... Foda-se tudo.
Sentir saudade é o cacete.

 Milla Borges