quinta-feira, 6 de março de 2014

Acho que as estrelas vão preencher esse vazio...


Tenho a sensação de que a angustia potencializa sentimentos que antes, bem antes de tudo, eram considerados menores. Não são. Aliás, não existe sentimento pequeno, o que faz a diferença é o tamanho do coração que serve de abrigo. No limbo da noite, toda avaliação sentimental se torna caos. Nada suporta o peso dos pensamentos noturnos.
Tem esse véu que ajuda a disfarçar um meio sorriso, tem essa sombra que auxilia o esconderijo da lágrima, tem esse silêncio, que deixa tudo mais tenso. Noites tensas. Olhos frios. Alma bem quente...
Uma verdade: escrever na paz noturna e se inquietar é um jeito de esvaziar. Tantos pensamentos acelerados necessitam de certa organização, e isso não se encontra por dentro. É preciso expelir tudo que arranha o corpo internamente e o que aperta o pescoço. Tira o ar, tira o sono. Isso tem feito sentido, pelo menos quando a noite cai. Principalmente enquanto a noite avança.
Não tenho mais vontade de escrever sobre minhas lembranças. Deixemos a memória quietinha em seu lugar. Os museus que me habitam estão fechados à visitação. Toda velharia sentimental tende a poluir um pouco a paisagem nova que começa a se formar. Não dá pra falar do que se foi. Coisas antigas não se traduzem. É preciso trancafiar o passado para sempre.
Difícil mesmo é entender tanto espaço. De tanto que a noite pede, eu dou o que há em mim. Não há regras, nem limites. Limite nunca existiu e é por isso que acabei transbordando. Não há como medir...
Sobram as lacunas, as falhas, os sulcos abertos.  As feridas até se cicatrizam, mas agora tenho algo que dói mais. Que não aperta, porém machuca. Especialmente quando anoitece.
Algo que não se sustenta, nem desmorona.  Algo que insiste e do qual eu também não quero mais falar.
Sem tempo para a Lua, (pois todo branco do mundo concentra-se na folha de papel), dedico as horas ao acaso, e de longe me faço espectadora de mim.
Falo da Lua por ser personagem da noite. Falo de mim por ser protagonista da vida.
Nada tenho que possa ser guardado, nem tudo quero que em mim se exponha.
 Pouco espero.
Não me lembro de ter poupado um pouco de esperança para quando esta me faltasse.
Talvez a vida se reflita nos olhos. (E a noite nem tenha assim tantos mistérios).
Acho que as estrelas vão preencher esse vazio...

Milla Borges