quinta-feira, 23 de outubro de 2014

De manhã


Hoje, bem cedinho, acordei um pouco assustada, o coração aceleradíssimo. Muitas palpitações.
Um ataque de ansiedade, uma coisa no estômago, a cabeça confusa... Não entendi muito bem aquilo.
Tentei me levantar, fiquei tonta, a vista turva. Deitei novamente. 
Contorci-me na cama, tentei dormir um pouco mais. 
Que hora mais sem jeito pra ficar ansiosa. Ansiosa por nada. Mas o sono não veio.
Então eu chorei. Na verdade eu me deixei chorar... Pra aliviar, pra ver se aquela sensação passava. Pra lavar o corpo por dentro, me deixei ser muitas lágrimas e soluços sem razão.
Chorei tanto... Senti medo. Quis um abraço. Não tinha. Constatei-me só. Chorei mais...
Pensei na vida, no futuro, no passado, nas culpas, nas dúvidas, nas incertezas, nas certezas...
Desfiz-me em lágrimas sinceras, lágrimas inseguras e infantis.
Senti saudade de Deus...
Lembrei-me da voz que me disse um dia desses: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam...”
Depois comecei a respirar bem devagarzinho. Imaginei o ar entrando por minhas narinas, indo até os pulmões e saindo pela minha boca bem lentamente. Fiz isso por alguns minutos e fui me acalmando. Fiquei um pouco mais serena. Com a alma mais tranquila.
Outro dia eu li que as mortes súbitas acontecem, geralmente, pela manhã. Eu acho que é porque de manhã estamos mais desprotegidos, sabe? Mais frágeis.
Tenho sido extremamente cuidadosa com as minhas manhãs... Não quero morrer subitamente.
Também não quero viver com o peito apertado.
Quero acordar em manhãs calmas, me sentir viva e seguir o caminho que é meu.
Sem medo.

Milla Borges.